GÊNESIS

Capítulo 1

     O OESTE do Estado de Nova York, em princípio do século dezenove, consistia quase que somente de território fronteiriço, um lugar de oportunidades para aqueles a quem a tremenda tarefa de abrir e desbravar a terra virgem pouco atemorizava. Entre esses, estavam Joseph e Lucy Mack Smith, com seus oito filhos, que em 1816 vieram para as vizinhanças de Palmyra, não muito distante de Rochester.

     Eram uma família típica da Nova Inglaterra, descendentes de ingleses e escoceses, que prezavam a independência pela qual seus pais haviam lutado, na Revolução Americana, em 1776. Eram pessoas religiosas, que liam a Bíblia e faziam orações em família, apesar de não pertencerem a nenhuma igreja, como a maioria das pessoas da época.

     Esta situação existente entre o povo das áreas fronteiriças dos Estados Unidos da América tornou-se assunto de séria preocupação para os líderes religiosos, e iniciou-se uma cruzada, a fim de se converter os descrentes. Esse movimento foi levado a efeito através de vasta área, desde os estados da Nova Inglaterra ate Kentucky. Em 1820, alcançou o oeste de Nova York. Os ministros das várias denominações uniram seus esforços, e muitos colonizadores esparsos foram convertidos. Certa semana, um jornal de Rochester publicou: "Mais de duzentas almas tornaram-se súditas esperançosas da graça divina em Palmyra, Macedon, Manchester, Lyons e Ontário, desde que o último reavivamento foi iniciado". Na semana seguinte, já houve condições de registrar que "...em Palmyra e Macedon... mais de quatrocentas almas confessaram que o Senhor é bom".(1)

A História de Joseph

     Sob o ímpeto desse reavivamento, quatro membros da família Smith - a mãe e três filhos - juntaram-se a Igreja Presbiteriana. Joseph Jr., então com quatorze anos, também sentiu forte desejo de se filiar a uma igreja.Queria, porém, estar certo ao dar um passo tão importante como esse, e ficou profundamente desapontado, porque, apesar de os ministros terem reunido seus esforços quando do início do reavivamento, discordaram profundamente entre si, mal os converses começaram a se filiar as várias congregações. Quanto mais ouvia as argumentações controvertidas, mais confuso se tornava. Raciocinando, concluiu que nem todos poderiam estar certos, e o problema de determinar qual igreja era reconhecida por Deus como sua o perturbava grandemente. Num relato simples e direto, ele conta a atitude que tomou e os notáveis acontecimentos posteriores:

     "Enquanto meditava sobre as extremas dificuldades causadas pelas lutas desses partidos religiosos, li um dia na epístola de Tiago, capítulo primeiro, versículo quinto, o seguinte: 'Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos da liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.'

     Nunca uma passagem da escritura veio com mais poder ao coração de um homem do que esta, nesse momento, ao meu... Refleti repetidas vezes sobre ela, sabendo que, se alguém necessitava da sabedoria de Deus, essa pessoa era eu; porque não sabia como agir e, a menos que obtivesse mais sabedoria do que a que então possuía, jamais chegaria a saber, pois os mestres de religião das diversas seitas interpretavam as mesmas passagens da escritura diferentemente, a ponto de destruir toda a confiança na solução do problema pela consulta a Bíblia.

     Por fim, cheguei a conclusão de que devia permanecer em trevas e confusão ou fazer como Tiago ensina, isto é, pedir a Deus. Finalmente, resolvi 'pedir a Deus', concluindo que, se ele dava sabedoria aos que necessitavam dela, e a dava liberalmente e não lançava em rosto, eu poderia aventurar-me.

     Assim, de acordo com esta minha resolução de pedir a Deus, retirei-me para o bosque, a fim de realizar meu intento. Foi numa formosa e clara manhã, nos primeiros dias da primavera de 1820. Era a primeira vez em minha vida que fazia tal tentativa, porque em meio a todas as minhas ansiedades, jamais havia procurado orar em voz alta ate então...

     Tendo olhado em derredor, e visto que me encontrava só, ajoelhei-me e comecei a oferecer a Deus os desejos do meu coração. Apenas fizera isto, quando fui subitamente subjugado por uma estranha força que me dominou inteiramente. Seu poder sobre mim era tão assombroso, que me travou a língua, de modo que não pude falar. Intensa escuridão envolveu-me, e tive a impressão, por algum tempo, de que estivesse condenado a uma súbita destruição.

     Empregando todas as minhas forças para pedir a Deus, e no momento exato em que estava prestes a cair em desespero, abandonando-me a destruição - não a uma ruína imaginária, mas ao poder de algum ser real do mundo invisível, que tinha uma força tão assombrosa como jamais havia sentido em nenhum ser - justamente nesse momento de grande alarma, vi uma coluna de luz sobre a minha cabeça, de um brilho superior ao do sol, que gradualmente desceu ate cair sobre mim.

     Logo após este aparecimento, senti-me livre do inimigo que me sujeitava. Quando a luz pousou sobre mim, vi dois personagens, cujo resplendor e gloria desafiam qualquer descrição, em pé, no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: 'Este é meu Filho Amado. Ouve-o.'

     Meu objetivo, ao me dirigir ao Senhor, era conhecer qual de todas as seitas era a verdadeira, a fim de saber a qual unir-me. Portanto, tão logo voltei a mim o suficiente para poder falar, perguntei aos personagens que estavam na luz acima de mim, qual de todas as seitas era a verdadeira, e a qual deveria unir-me.

      Foi-me respondido que não me unisse a nenhuma delas, pois 'eles se chegam a mim com seus lábios, porém seus corações estão longe de mim; eles ensinam como doutrina os mandamentos dos homens, tendo uma religiosidade aparente, mas negam o meu poder".(2)

Reações

     Como era de se esperar, uma história assim tão fora do comum causou considerável agitação. De boa fé, ele conversou sobre o assunto com um dos pregadores que se havia empenhado no reavivamento. O rapaz foi tomado de surpresa, quando o pregador se referiu a história com desprezo, dizendo-lhe que tais coisas eram do diabo e que todas as visões e revelações haviam cessado com os apóstolos "e que não haveria mais nenhuma". Mas isso ainda não foi o encerramento do assunto para ele. Logo se viu alvo de ridículo, e homens que em circunstâncias comuns não teriam dado atenção a um rapazola, esmeraram-se em aviltá-lo. Isto foi motivo de grande desgosto para ele. Sua narrativa continua:

     "Era um fato ter tido eu uma visão. Pensei, desde aí, que me sentia como Paulo, ao fazer sua defesa perante o Rei Agripa, relatando o resultado da visão que tivera quando viu uma luz e ouviu uma voz; no entanto, poucos acreditaram nele; alguns diziam que era desonesto, outros que estava louco; e ele foi ridicularizado e injuriado. Mas tudo isto não destruiu a realidade de sua visão. Ele tivera uma visão, sabia que a tivera, e todas as perseguições debaixo do céu, não poderiam mudar o fato; e, ainda que o perseguissem ate a morte, com tudo isso, sabia, e saberia ate o ultimo alento, que tinha visto uma luz e ouvido uma voz que lhe falara, e o mundo inteiro não podia fazê-lo pensar ou crer no contrário.

     Assim era comigo. Eu tinha realmente visto uma luz, e no meio da luz vi dois personagens, e eles em realidade falaram comigo; e ainda que perseguido e odiado por dizer que eu tivera uma visão, entretanto era a verdade; e enquanto eles me perseguiam, injuriando-me e dizendo toda espécie de falsidades contra mim, devido a minhas afirmações, fui induzido a dizer em meu coração: Por que me perseguem por dizer a verdade? Tive realmente uma visão; e quem sou eu para opor-me a Deus? Ou, por que pensa o mundo fazer-me negar o que realmente vi? Porque havia tido uma visão; eu o sabia, e não podia negá-lo, nem ousaria fazê-lo; pelo menos eu sabia que, procedendo assim, ofenderia a Deus, e estaria sujeito a condenação".(3)

     Joseph Smith havia resolvido o grande problema que atribulara sua mente. Não se filiou a nenhuma das igrejas que haviam procurado interessá-lo. E, o que é mais importante, aprendeu que a promessa de Tiago é verdadeira: Aquele que não tem sabedoria, pode pedir a Deus e obtê-la, e esta não lhe será lançada em rosto.

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