Tornara-se aparente para Brigham Young e outros l�deres da Igreja que n�o seria prudente tentar alcan�ar as Montanhas Rochosas no ano de 1846, pois a expedi��o havia sido grandemente enfraquecida com a perda dos jovens que marcharam com o Batalh�o M�rmon. Assim sendo, estabeleceram um acampamento tempor�rio, ao longo do rio Missouri.

     O local, perto da atual cidade de Omaha (no estado de Nebraska), logo teve mais a apar�ncia de uma cidade do que de um acampamento. Muitas pessoas satisfaziam-se com casebres de madeira e outros abrigos r�sticos. Contudo, mil casas resistentes de madeira foram levantadas antes de Janeiro de 1847.

     Durante aquele inverno, houve uma febril atividade. As bigornas soavam, consertando e produzindo carro��es. Estudaram cuidadosamente os mapas e relat�rios dispon�veis e fizeram todos os preparativos poss�veis para a viagem programada para a primavera seguinte.

     A comunidade n�o deixava de ter os seus prazeres, apesar de o conforto ser escasso. Freq�entemente eram realizados bailes, patrocinados pelos v�rios quoruns do sacerd�cio. A adora��o religiosa continuou, como se o povo se tivesse fixado permanentemente. As escolas para as crian�as funcionavam com sucesso, pois a educa��o dos jovens tem sempre sido de primordial import�ncia na filosofia M�rmon.

     Mas, freq�entemente, um aluno e algumas vezes v�rios, deixava de se apresentar ao toque da sineta da escola. Uma esp�cie de escorbuto, chamada cancro negro, iniciou dolorosa ceifa. A falta de boa alimenta��o, os abrigos insuficientes e os extremes de temperatura nas baixadas do rio, tudo isso tornou o povo presa f�cil das doen�as.

     H� alguns anos, a Igreja ergueu um monumento no cemit�rio de Winter Quarters. De enorme tamanho, mostra uma m�e e um pai, enterrando uma crian�a num t�mulo que sabiam jamais poderiam visitar novamente. Ao redor do monumento, acham-se as sepulturas de cerca de seiscentos dos que morreram nesse acampamento tempor�rio das plan�cies.

     No in�cio da primavera de 1847, foram completados os pianos de enviar as Montanhas Rochosas um pequeno grupo para reconhecimento. Foram encarregados de tra�ar um mapa e de encontrar "um lugar" para os milhares que os seguiriam.

     A 14 de Janeiro, o Presidente Brigham Young deu aos santos o que ele declarou ser uma revela��o do Senhor. Tornou-se a constitui��o que dirigiu seu movimento para o oeste. Eis um trecho desse interessante documento:

     "A palavra e vontade do Senhor, concernente ao Acampamento de Israel nas suas viagens ao oeste.

     Que todo o povo de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos �ltimos Dias, e aqueles que com eles viajam, sejam organizados em companhias, com o conv�nio e promessa de que guardar�o todos os mandamentos e estatutos do Senhor nosso Deus.

     Que as companhias sejam organizadas tendo um capit�o para cada cem, cada cinq�enta e cada dez, sob o comando de um presidente e dois conselheiros, sob a dire��o dos Doze Ap�stolos.

     E este ser� o nosso conv�nio: obedecermos a todas as ordenan�as do Senhor...

     E se qualquer homem quiser elevar-se e n�o procurar o meu conselho, n�o ter� poder algum, e a sua imprud�ncia se far� manifesta.

     Buscai; e cumpri todas as promessas que fizestes uns aos outros; e n�o cobiceis aquilo que pertence ao vosso irm�o.

     Guardai-vos do pecado de tomar o nome do Senhor em v�o...

     Cessai de contender uns com os outros; cessai de falar mal uns dos outros.

     Cessai de vos embriagar; e em vossas palavras, procurai edificar-vos uns aos outros.

     Se tomardes algo emprestado a vosso vizinho, pagareis o que tomastes e, se n�o puderdes pag�-lo, ent�o ide diretamente ao vosso pr�ximo e lho dizei, para que n�o vos condene.

     E se achardes o que o vosso pr�ximo tiver perdido, procura-reis diligentemente ate que o encontreis para entregar o que achastes.

     Sede diligentes na preserva��o do que possu�s, para que sejais mordomo s�bio; pois o que possu�s � d�diva gratuita do Senhor vosso Deus e sois o seu mordomo.

     Se estiverdes alegres, louvai ao Senhor com c�nticos, com m�sica, com dan�a e com ora��es de louvor e a��es de gra�a.

     Se estiverdes tribulados, buscai ao Senhor vosso Deus com s�plicas, a fim de que a vossa alma se alegre.

     N�o receeis os vossos inimigos, pois est�o em minhas m�os e agirei com eles como me parecer bem".(1)

     A estes padr�es de conduta, foram acrescentadas outras regras espec�ficas. Todo homem deveria trazer consigo um revolver carregado, ou t�-lo em seu carro��o, onde, em caso de ataque, pudesse ser alcan�ado prontamente. A noite, os carro��es deviam acampar em c�rculo, a fim de formar um curral para os animais. No domingo, n�o se deveria viajar nem trabalhar; tanto os homens como os animais deveriam descansar nesse dia. A ora��o, pela manh� e a noite, deveria ser uma pr�tica comum no acampamento.

     No dia 5 de abril, os pioneiros batedores partiram para o oeste. Seu grupo consistia de 143 homens, 3 mulheres e 2 crian�as, com Brigham Young a frente. Felizmente, ao se afastarem uma pequena dist�ncia do acampamento, os ap�stolos Parley P. Pratt e John Taylor chegaram a Winter Quarters, vindos da Inglaterra. Trouxeram consigo bar�metros, sextantes, telesc�pios e outros instrumentos. Nas m�os de Orson Pratt, cientista competente, tornaram poss�vel aos pioneiros determinar diariamente sua latitude, longitude, temperatura e eleva��o acima do n�vel do mar. Estas informa��es foram de incalcul�vel valor para os que vieram mais tarde.

     J� existia na margem sul do rio Platte uma das famosas trilhas hist�ricas. Nos anos seguintes, milhares de emigrantes que se dirigiam para o Oregon e Calif�rnia, tamb�m viajaram por ela. Contudo, Brigham Young op�s-se a utiliza��o da estrada de Oregon, e decidiu-se pela abertura de um novo caminho ao norte do rio. Assim fazendo, disse ele, os M�rmons evitariam conflitos com outras pessoas que tamb�m se dirigiam ao oeste, e al�m disso, teriam mais pastagem para o gado dos grupos que vi-riam mais tarde. � interessante notar que, quando a ferrovia Union Pacific foi constru�da, alguns anos mais tarde, seguiu a estrada feita pelos M�rmons por uma dist�ncia consider�vel.

     Em 1847, grandes rebanhos de b�falos erravam pelas plan�cies. Era pr�tica costumeira dos emigrantes atirar contra eles, simplesmente por esporte. Mas Brigham Young tomou uma atitude. Ordenou ao povo que n�o matasse mais do que o necess�rio para alimento.

     Por uma s�rie de raz�es, sendo que uma das mais importantes era a prepara��o de um guia para os que viessem depois, os pioneiros queriam saber o n�mero de quil�metros percorridos a cada dia. O primeiro aparelho que usaram para determinar isso foi um pano vermelho amarrado em uma roda de carro�a. Contando as voltas da roda e multiplicando-se esse n�mero pela circunfer�ncia do aro, era poss�vel determinar a dist�ncia viajada. Logo, por�m, se tornou cansativo observar as evolu��es da roda o dia todo. Era necess�rio uma forma mais pr�tica.

     Ap�s estudar o assunto com Orson Pratt, Appleton Harmon resolveu o problema. Entalhando um conjunto de engrenagens de madeira, construiu o que foi chamado "rod�metro". Tratava-se de algo novo, que foi o precursor do moderno od�metro. Embora feito em madeira, era de precis�o admir�vel.

     Para orienta��o daqueles que viriam depois, o grupo de pioneiros batedores deixava cartas de instru��o, contendo a quilometragem e as condi��es da estrada. Eram colocadas em caixas de correio improvisadas, ou pintadas no cr�nio de b�falos, ressecados ao sol.

     Di�rios eram mantidos cuidadosamente, anotando-se pormenores da viagem. Dois trechos do di�rio de Orson Pratt ser-vem como ilustra��o:

     "22 de maio - Um quarto depois das cinco da manh�, o bar�metro fixou-se em 26.623, o term�metro anexo marcava 11 graus, e o term�metro avulso marcava 10 graus. Havia uma ligeira brisa soprando do sul - o c�u, parcialmente coberto de nuvens t�nues...

     A 8.900 metros de nosso acampamento matinal, atravessamos um regato, que denominamos Crab Creek; 3 quil�metros adiante, paramos para o almo�o. A observa��o do nosso meridiano do sol nos colocou em latitude 41� 30' 3". Eu pretendia ter extra�do a dist�ncia lunar, para a longitude, mas as nuvens impediram. Com nossos �culos de alcance, a Rocha Chimney pode agora ser avistada a uma dist�ncia de cerca de 67 quil�metros rio acima. A esta dist�ncia, parece uma torre colocada sobre uma eleva��o ou colina. Mais 6,5 quil�metros nos levaram a um outro local, onde o rio bate contra as ribanceiras; como de costume, tivemos de passar por cima delas e, cerca de 3,5 quil�metros adiante, chegamos ao in�cio da plan�cie e acampamos, ap�s andar mais uma pequena dist�ncia, tendo viajado 25 quil�metros durante o dia. De 1,5 quil�metros para c�, a forma��o do terreno, mais particularmente a das ribanceiras, tem-se alterado gradativamente da areia para a marga e pedra de cal macia e terrosa, cuja contextura est� come�ando a alterar a natureza da terra, apresentando paisagens de not�vel beleza...

     23 de maio - Hoje, como de costume, descansamos e deixamos os animais descansar. O merc�rio do bar�metro evidencia press�o atmosf�rica muito abaixo do que seria normal na nossa escala gradual; as cinco horas parou em 26.191; o term�metro anexo indicava 12,5 graus, e o avulso 11 graus de temperatura. Essa baixa de press�o no merc�rio � indicativo de ventania. Hoje, varies de n�s visitamos o topo de algumas dessas ribanceiras e, por medida barom�trica, determinei que a altura de um deles era de 7,30 m acima do rio, e 112 m acima do n�vel do mar... H� abund�ncia de cascav�is nesta regi�o... Logo ap�s o jantar, reunimo-nos em adora��o p�blica, tendo o povo ouvido o Presidente Brigham Young e outros, que falaram de maneira interessante e inteligente".

     A rota dos pioneiros ligou o vale do rio Platte a conflu�ncia dos rios North Platte e South Platte. Seguiram, ent�o, o North Platte atrav�s do que agora � o Nebraska e Wyoming, ate o local onde o rio Sweetwater desemboca no North Platte. Acompanharam esse riacho ate sua nascente, perto de South Pass, Wyoming.

     A 1� de junho, o grupo chegou ao velho Forte Laramie, onde se surpreenderam ao encontrarem um grupo de membros da Igreja de Mississipi, que tinha vindo do Sul, atrav�s de Pueblo Colorado, com o prop�sito de se juntar aos pioneiros e seguir com eles ao seu destino.

     A 27 de junho, atravessaram o South Pass, local em que as Montanhas Rochosas declinam suavemente ate a plan�cie, e pelo qual passava a maioria dos emigrantes que se dirigiam ao oeste. Em South Pass, os M�rmons encontraram-se com o major Moses Harris, famoso ca�ador e batedor. Receberam dele uma descri��o da bacia do Lago Salgado que, alias, foi desfavor�vel. Sobre essa entrevista Orson Pratt escreveu:

     "Obtivemos muitas informa��es dele com rela��o a grande bacia interior do Lago Salgado, a terra de nosso destino. Seu relat�rio, tal como o do Capit�o Fremont, � desfavor�vel a forma��o de uma col�nia nessa bacia, principalmente devido a escassez de madeira para constru��o. Ele disse que j� viajara toda a circunfer�ncia do lago, e n�o encontrara ind�cio algum da mesma".(3)

     A 28 de junho, encontraram o h�bil veterano do oeste, Jim Bridger. Ansiosos por saber o que pudessem a respeito da terra para a qual estavam viajando, os M�rmons aceitaram sua sugest�o e acamparam em sua companhia naquela noite. Informou que podiam ser encontradas algumas partes boas tanto ao norte como ao sul da bacia do Lago Salgado, mas desencorajou qualquer piano para estabelecimento de uma grande col�nia na pr�pria bacia.

     A 30 de junho, apareceu Samuel Brannan. Era membro da Igreja e, a 4 de fevereiro de 1846, quando se iniciou o �xodo de Nauvoo, ele havia navegado de Nova York para a Calif�rnia, contornando o cabo Horn. Aportando em Yerba Buena, hoje S�o Francisco, estabeleceu o primeiro jornal ali publicado em l�ngua inglesa. Partiu da Calif�rnia em abril, viajando pelas montanhas para encontrar-se com Brigham Young. No caminho, passou pelo cen�rio da trag�dia de Donner Party, ocorrida no ano anterior, e fez aos M�rmons uma descri��o daquele desventurado acampamento, no qual mais de vinte pessoas morreram de fome nas neves das Serras. Brannan descreveu entusiasticamente para o Presidente Young as belezas da Calif�rnia. Era, disse ele, uma terra rica e produtiva, de grande beleza e clima ameno, um lugar onde os M�rmons poderiam prosperar. Mas o Presidente Young n�o desistia do prop�sito a que se havia proposto. Deus tinha um lugar para seu povo, e l� iriam eles construir seu destino.

     Ao se aproximarem das montanhas, a viagem tornou-se mais dif�cil. Seus animais estavam estafados e as carro�as estragadas. Al�m disso, as �ngremes passagens da montanha, com seus regatos ligeiros, rochas enormes e mata cerrada, apresentavam problemas muito diversos dos que haviam enfrentado nas plan�cies.

     A 21 de julho, Orson Pratt e Erastus Snow, dois batedores, entraram no Vale do Lago Salgado. Tr�s dias mais tarde, Brigham Young, que se tinha movido mais vagarosamente por se achar enfermo, atravessou a passagem e olhou o vale. Deteve-se e, com gesto prof�tico, anunciou, ent�o: "Este � o lugar certo".

     Aquela era a terra prometida! Aquele vale com seu lago salgado brilhando ao sol de julho. Aquela plan�cie sem �rvores, nas montanhas. Aquele peda�o de terra seca, entremeada somente por poucos regatos borbulhantes correndo dos desfiladeiros para o lago. Esse era o objeto da vis�o e da profecia, a terra com a qual os milhares que ainda estavam em Winter Quarters sonhavam. Essa era a sua terra de ref�gio, o lugar onde os santos "tornar-se-iam um povo poderoso em meio as Montanhas Rochosas".

<< Cap�tulo 9

Sum�rio

P�gina Inicial

Cap�tulo 11 >>