Duas horas após a chegada do grupo principal de pioneiros, já começaram a arar o Vale do Lago Salgado. Mas o solo era tão seco e duro, que os arados se quebraram. Desviaram, então um dos regatos do desfiladeiro, e o solo absorveu a água, tornando mais fácil a aração. No dia 24 de julho plantaram-se batatas e irrigou-se o solo. Este foi o princípio da irrigação feita pelos povos anglo-saxões no oeste, e marcou, de fato, o início da prática da irrigação moderna.

     Apesar de outras sementes terem sido plantadas, além de batatas, havia pouca possibilidade de que a plantação fosse adiante, mas todos esperavam que uma quantidade suficiente fosse produzida, e que, assim, tivessem sementes para a primavera seguinte.

     Brigham Young chegou num sábado. No dia seguinte, o pessoal se reuniu para os serviços de adoração, tendo recebido os estatutos que deveriam reger a nova colônia. O Presidente Brigham Young declarou:

     "Não se fará nenhum trabalho aos domingos. Se o fizerem, perderão cinco vezes o que ganharam. Ninguém deve caçar nesse dia... Nenhum dos homens que aqui chegou deve procurar comprar terras, pois que não há terras a venda. Todos terão a sua terra medida em lotes para urbanização e cultivo. Poderão cultivá-la como bem lhes aprouver, mas é preciso que se esforcem e cuidem convenientemente dela. Não haverá proprietários de regatos, e a madeira será considerada propriedade comum. Quero também aconselhá-los a usar somente árvores mortas para combustível, economizando as vivas para o futuro. Caminhem fielmente a luz destas leis e serão um povo   próspero".(1)

     No dia seguinte, todos se ocuparam com a exploração dos arredores, para conhecerem suas possibilidades. Apesar de sua fé ser forte e grande sua esperança, a situação não podia ser chamada de encorajadora. Constituíam um grupo pequeno, com poucas provisões, situados a 1600 quilômetros da colônia mais próxima a leste, e a cerca de 1150 quilômetros da costa do oceano Pacífico. Não conheciam as fontes de riqueza desta terra estranha e nova, de natureza diferente das que haviam deixado.

     Não obstante, iniciaram os preparativos para uma vasta cidade. Quatro dias após chegarem ao vale, Brigham Young caminhou ate um ponto ao norte do acampamento, e então proclamou: "Aqui está o local para o nosso templo".(2) A cidade foi, então, distribuída em volta desse lugar, com ruas de quarenta metros de largura. Tal dimensão era considerada inteiramente desnecessária naqueles dias, mas a prudência desse ato tornou-se evidente com o advento do tráfego moderno. O projeto de comunidade denominou-se Cidade do Lago Salgado.

     Uma particularidade que captou a atenção dos pioneiros ao explorarem o vale foi a semelhança desta Sião recém-descoberta com a Terra Santa. Quarenta quilômetros ao sul do seu acampamento encontrava-se um belo lago de água doce, com um rio que corria daí para outro Mar Morto, o grande Lago Salgado. Deram a esse rio o nome de Jordão.

     Após terem sido fixados os regulamentos e os pianos, Brigham Young e outros iniciaram a longa viagem de volta a Winter Quarters. Aqueles que permaneceram no vale, iniciaram imediatamente a construção de um forte, no qual se alojaram e a grande leva que aguardavam para o final do verão. A maioria das famílias passou o primeiro inverno no forte, apesar de alguns terem se aventurado a construir suas próprias casas.

     Felizmente, aquele primeiro inverno foi excepcionalmente brando. Não obstante, os colonizadores sofreram. Os alimentos eram escassos, e as roupas estavam piores ainda. Para alimento, cozinhavam raízes de lírio sego e cardos. Em lembrança do papel que representou no sustento dos pioneiros, o lírio sego é hoje a flor símbolo do Estado de Utah.

     Não perderam tempo em se preparar para o futuro. Durante todo o inverno, progrediu o trabalho de cercamento e limpeza da terra. Araram e plantaram um campo comum de mais de vinte quilômetros quadrados. Considerando-se os utensílios que este povo possuía, foi uma grande realização.

     Na primavera, os vastos campos de grão verde constituíam ampla recompensa pelos labores do outono e do inverno anteriores. Agora, pensavam eles, haverá fartura tanto para nós como para o numeroso grupo de imigrantes esperado no verão. Com a irrigação, a plantação brotou. O futuro parecia radioso.

     Notaram, porém, um dia, que enormes gafanhotos estavam devorando os grãos. Tinham sido observados pelos primeiros homens que entraram no vale, e os recém-chegados notaram que os índios os ingeriam como alimento. Mas não esperavam que isto fosse acontecer. Dia a dia a situação piorava. Os insetos vinham aos milhares, devorando tudo em seu caminho.

     O terror se abateu sobre o coração do povo, ao verem que sua plantação desaparecia ante os insetos. Tentaram com todas as forças eliminá-los, com fogo e com água. Procuraram açoitá-los com pás e vassouras. Todos os meios possíveis foram usados para se tentar salvar as colheitas. Mas eles continuavam a chegar e a comer todos os brotos que encontravam.

Exaustos e desesperados, os santos voltaram-se para o Senhor, rogando em oração que fosse preservado o pão para seus filhos.

     Para seu espanto e admiração, viram grandes bandos de brancas gaivotas, voando do lago para o oeste e pousando nos campos. A princípio, pensaram que fosse um novo inimigo que vinha para feri-los. Mas as gaivotas voaram atrás dos gafanhotos, devorando-os e afastando-se para vomitar e retornar a carga.

     A colheita de 1848 foi salva. Na praça do Templo, na Cidade do Lago Salgado, ergueu-se um monumento a gaivota. Gravadas em bronze, lêem-se as seguintes palavras: "Erigido em grata memória da misericórdia de Deus para com os pioneiros Mórmons".

     Brigham Young retornou a Winter Quarters a 31 de outubro de 1847. A 5 de dezembro, foi apoiado como presidente da Igreja. Desde a morte de Joseph Smith, Brigham Young tinha dirigido a Igreja na qualidade de presidente do Conselho dos Doze Apóstolos. Nomeou seus conselheiros Heber C. Kimball, que se havia filiado a Igreja juntamente com ele, e o dr. Willard Richards.

     A 26 de maio de 1848, partiu de Winter Quarters, para jamais retornar ao leste. Apesar de agora conhecer o caminho, esta segunda viagem foi mais difícil do que a primeira. O grupo que ele liderava "... era composto de 397 carroções, com 1229 almas, 74 cavalos, 19 mulas, 1275 bois, 699 vacas, 184 cabeças de gado, 411 carneiros, 141 porcos, 605 galinhas, 37 gatos, 82 cães, 3 bodes, 10 gansos, 2 colméias, 8 pombos e 1 corvo".(3) Não era fácil pastorear tal caravana através de 1600 quilômetros de planícies e montanhas.

     Chegaram ao vale a 20 de outubro, 116 dias após a partida de Winter Quarters. Enquanto isso, aconteceu algo na Califórnia que ateou fogo aos corações aventureiros em todo o mundo e que deveria afetar os Mórmons.

     Depois que o Batalhão Mórmon deu baixa na Califórnia, alguns de seus homens detiveram-se no Forte Sutter, no vale de Sacramento, a fim de trabalhar e ganhar um pouco de dinheiro, antes de atravessar as montanhas para se reunir as famílias. Seis deles, com o capataz de Sutter, James W. Marshall e alguns índios, iniciaram a construção de uma serraria no entroncamento sul do rio Americano. Lá, em 24 de Janeiro de 1848, Marshall recolheu um pouco de ouro das areias do córrego do moinho. Naquela noite, Henry Bigler, um dos membros do batalhão, escreveu em seu diário: "Neste dia, foi encontrada no córrego uma espécie de metal que parece ouro".(4)

     Essa anotação histórica é a única documentação da descoberta que provocou a corrida de homens por terra e mar para a Califórnia.

     Mas, enquanto alguns corriam para o rio Americano, os homens do Batalhão terminaram seu contrato com Sutter, reuniram suas posses e dirigiram-se para o leste, pelas montanhas, para o semi-árido vale do grande Lago Salgado, para lá se empenharem com seus amigos na dolorosa tarefa de subjugar o solo.

     Enquanto isso, a febre do ouro havia-se apossado de alguns dos que se encontravam no vale e que tinham acabado de atravessar um inverno difícil. Naquela ocasião, Brigham Young falou:

     "Alguns me consultaram sobre sua partida. Eu lhes disse que Deus indicou este local para a reunião dos seus santos e ficarão melhor aqui do que partindo para as minas de ouro... Aqueles que aqui permanecerem e forem fiéis a Deus e ao seu povo, ganharão mais dinheiro e serão mais ricos do que os que correrem atrás do ouro do mundo; e eu lhes prometo, em nome do Senhor, que muitos de vocês que partirem pensando que enriquecerão para depois retornar, desejarão nunca ter-se afastado daqui e ansiarão por voltar, mas isso não será possível. Alguns voltarão, mas seus amigos que aqui permanecerem terão de ajudá-los; e o restante, que não tiver de voltar, não ganhará tanto dinheiro como seus irmãos que permanecerem para ajudar a construir a Igreja e o Reino de Deus. Prosperarão e lerão duas vezes mais. Aqui é o local que Deus indicou para seu povo.

     ... A medida que os santos se reunirem aqui e se fortalecerem para possuir a terra, Deus abrandará o clima, e construiremos uma cidade e um templo para o Altíssimo neste lugar. Estenderemos nossas cidades e nossas colônias para leste e para oeste, para o norte e para o sul, construiremos vilas e cidades as centenas, e milhares de santos reunir-se-ão das nações da terra. Esta se tornará a grande estrada das nações. Reis e imperadores, os nobres e os sábios da terra nos visitarão aqui, enquanto os maus e os iníquos invejarão nossos lares confortáveis e nossas posses. Tende coragem, irmãos... Arai vossa terra e plantai trigo e batatas... O meu maior temor quanto a este povo é que se torne rico nesta terra, esqueça-se de Deus e seu povo, prospere, se expulse mutuamente da Igreja e caia no inferno. Este povo agüentará toda espécie de turbulência, roubos, pobreza e perseguições, e permanecerá fiel. Mas meu maior temor é que não possam suportar a riqueza; pois tornar-se-ão o povo mais rico da terra".(5)

     Antes do final do ano de 1848, a população do vale era constituída de cinco mil pessoas. Este grande afluxo de emigrantes tornou-se bastante pesado para as possibilidades da terra. A fome e o sofrimento foram comuns naquele inverno, e estas circunstâncias contribuíram para o desencorajamento de muitos. Em meio a essas trágicas circunstâncias, Heber C. Kimball, falando ao povo em uma reunião, profetizou que, em menos de um ano, haveria fartura de roupas e de outros artigos necessários, vendidos nas ruas de Lago Salgado por menos do que em Nova York, ou St. Louis.(6)

     Tal situação era inacreditável, mas o cumprimento da profecia verificou-se de maneira notável.

     Acreditando poder enriquecer-se com a venda de mercadorias na Califórnia, muitos comerciantes dos estados do leste carregaram seus grandes carroções com roupas, ferramentas e outras mercadorias que seriam necessárias nas escavações. Mas, ao chegarem a Cidade do Lago Salgado, souberam que outros concorrentes os haviam precedido, viajando de navio e contornando o cabo Horn.

     Seu único interesse, então, foi descarregar o que tinham, por qualquer preço, e partir para a Califórnia o mais depressa possível. Realizando leilões em seus carroções nas ruas de Lago Salgado, vendiam tecidos e roupas por menos do que em Nova York. As ferramentas de que tanto os santos precisavam, puderam ser compradas por menos do que em St. Louis, Missouri. Belas parelhas, cansadas da longa viagem, foram ansiosamente trocadas pelas parelhas mais gordas, porém de menor valor, dos Mórmons. Muitas carroças boas e pesadas, tão necessárias na colônia montanhosa, foram trocadas por veículos mais leves, nos quais os cavadores de ouro ganhariam tempo.

     Enquanto homens ambiciosos viajavam por terra e mar a procura de ouro, os Mórmons também enviavam homens ambiciosos, por terra e mar - a procura de almas. Foram enviados missionários para os estados do leste (dos Estados Unidos) e Canadá, e para as ilhas Britânicas. Apesar dos terríveis preconceitos que tinham de enfrentar, fizeram bastante progresso, batizando milhares de pessoas.

     A obra missionária na Franca e na Itália não produziu resultados muito animadores, apesar de se haverem batizado alguns conversos, a princípio. Nos países escandinavos, os élderes eram atacados e aprisionados, mas o espírito de tolerância desenvolveu-se gradativamente e foram feitas milhares de conversões naquelas terras.

     Esses pregadores, viajando sem bolsa nem alforje, foram a Malta, Índia, Chile e as ilhas do Pacífico. Em quase todos os lugares, encontravam o ódio e o ataque da multidão. Mas em todas essas terras, encontraram alguns que aceitaram sua mensagem.

     Após batizados, esses conversos desejavam quase invariavelmente reunir-se aos outros de sua fé, nos vales das Montanhas Rochosas - Sião, como os denominavam. E mais uma vez as diferenças de língua e de costume desapareceram a medida que homens e mulheres de muitas terras trabalharam juntos na edificação de uma comunidade.

     Era inevitável que os limites da Igreja se estendessem fora do vale do Lago Salgado. Com milhares de conversos vindos de outras nações, outras colônias foram fundadas. A princípio, eram próximas da colônia-mãe, mas logo os carroções foram-se movimentando para norte e sul, para vales distantes. No final do terceiro ano, as colônias já se estendiam a 320 quilômetros ao sul. Ao findar-se o quarto ano, encontravam-se colônias numa distância de 480 quilômetros. Em 1851, quinhentos santos foram chamados para se dirigirem ao sul da Califórnia, e ali estabelecer uma colônia. Estabeleceram lá os alicerces de São Bernardino.

     Em quase todos os casos, a colonização envolvia grandes sacrifícios. Muitas famílias tinham de partir de seus lares confortáveis e de seus campos cultivados, a fim de se dirigirem a regiões incultas e lá começarem novamente. Mas, através de seus esforços, centenas de colônias foram plantadas num vasto território do oeste. A respeito da extensão da colonização, James McClintock, historiador do estado do Arizona, escreveu:

     "É fato pouco reconhecido que os Mórmons tenham sido os pioneiros na colonização agrícola de quase todos os estados montanhosos de hoje... Sem serem levados por visões de riqueza, a menos que esperassem por mansões celestiais, procuraram, especialmente, vales onde a paz e a abundância pudessem ser conseguidas com trabalho...

     Os primeiros Mórmons que surgiram nas colinas do oeste do continente foram os do acampamento de São Francisco, membros vindos pelo navio "Brooklyn". Aportaram a 21 de julho de 1846, para fundarem a primeira comunidade de língua inglesa do Estado Dourado (Califórnia), ate então mexicano. Esses Mórmons estabeleceram a colônia agrícola de Nova Helvécia, no vale de São Joaquim, no mesmo outono, enquanto os homens do Batalhão Mórmon, a 24 de Janeiro de 1848, participavam da descoberta de ouro no Forte Sutter. Os Mórmons também foram os pioneiros no sul da Califórnia, onde, em 1851, várias centenas de famílias daquela fé se estabeleceram em São Bernardino.

     A primeira colônia anglo-saxônica dentro dos limites do atual estado do Colorado foi Pueblo, estabelecida a 15 de novembro de 1846, pelo Capitão James Brown e cerca de 150 homens e mulheres Mórmons, que haviam sido mandados de volta de Novo México, para onde tinham ido, e constituíam uma parte do Batalhão Mórmon que marchara para a costa do Pacífico.

     O primeiro acampamento americano em Nevada foi o dos Mórmons, no Vale Carson, em Gênova, 1851.

     Em Wyoming, desde 1854, havia uma colônia Mórmon em Green River, perto do Forte Brigder, conhecido como Forte Supply.

     Também em Idaho foi solicitada preeminência, em virtude de haver uma colônia Mórmon em Forte Lemhi, no rio Salmon, em 1855, e em Franklyn, no vale Cache, em 1860.

     ... Em lugar de importância, quanto a precedência, (na colonização do Arizona), devem ser notados os acampamentos Mórmons em Muddy e Virgin".

     Referindo-se a qualidade da colonização Mórmon, F. S. Dellenbaugh, grande estudioso da colonização do oeste americano, escreveu:

     "Deve-se reconhecer que os Mórmons foram colonizadores de primeira qualidade. Eles não somente penetravam na terra inculta, mas também permaneciam nela e, ao invés de uma destilaria de gengibre e de casas de jogo, estabeleciam, como pedras fundamentais de seu progresso e como exemplo aos nativos da superioridade do homem branco, pomares, jardins, fazendas, escolas e lares pacíficos.(8)

<< Capítulo 10

Sumário

Página Inicial

Capítulo 12 >>