Mesmo sob as condi��es mais favor�veis, a coloniza��o de regi�es incultas � tarefa cansativa e trabalhosa. Na Grande Bacia do Oeste, foi uma luta intermin�vel contra secas, �ndios, condi��es dif�ceis de locomo��o, pobreza, escassez de for�a hidr�ulica, fretes excessivos das mercadorias transportadas, gafanhotos e perda de planta��es. As trag�dias eram freq�entes na luta para conquistar uma posi��o firme naquela terra vasta e proibida.

     Talvez algu�m julgue que, sob tais condi��es, houvesse pouco tempo para assuntos religiosos. Mas os M�rmons sempre estiveram conscientes do motivo pelo qual tinham vindo para essa regi�o. N�o fora pela aventura, nem para se enriquecerem. Tinham passado por suficientes aventuras em Missouri e Illinois, e as terras que deixaram eram muito mais ricas do que as dos vales e das montanhas. Tinham vindo para adorar a Deus e para realizar sua obra.

     Era bastante comum ver os homens serem chamados para irem a terras distantes como mission�rios. Tal trabalho compreendia, invariavelmente, grandes sacrif�cios, tanto para o mission�rio, como para a fam�lia que ficava. Enquanto o pai pregava o evangelho, a m�e e os filhos realizavam tarefas pesadas, apesar de serem sempre auxiliados pelos membros do sacerd�cio, que lhes dedicavam tempo tirado dos seus pr�prios afazeres.

     Grande n�mero de conversos reunia-se nas col�nias das montanhas. Para auxiliar os pobres, foi institu�da em 1849 a Companhia de Fundos de Emigra��o Perp�tua ("The Perpetual Emigrating Fund Company"), da qual os necessitados podiam tomar emprestado para pagar seu transporte, devendo o dinheiro ser devolvido o mais depressa poss�vel, para que outros fossem, tamb�m, beneficiados. O fundo come�ou a funcionar em 1850. Nos trinta anos seguintes, auxiliou quarenta mil pessoas a chegarem a Utah, e suas atividades chegaram a envolver a elevada soma de US$ 3.600.000.

     Antes da chegada da estrada de ferro, era imposs�vel encontrar carro��es suficientes para conduzir todos os que desejavam atravessar as plan�cies. Alguns estavam t�o ansiosos por se reunir a Igreja, que caminharam, puxando carros de m�o, por mais de 1600 quil�metros. A maioria dos que viajavam desta maneira alcan�aram o vale do Lago Salgado t�o segura e rapidamente como os que se transportaram por juntas de bois e carro��es.

     Lament�vel trag�dia, contudo, abateu-se sobre dois grupos de carros de m�o. Sua hist�ria � resumida em dois marcos que se ergueram num campo coberto de salva, do estado de Wyoming, perto de South Pass. Em um deles acha-se inscrito:

     "Os emigrantes M�rmons que viajavam com carros de m�o, sob o comando do capit�o James G. Willie, a caminho de Utah, completamente exaustos pelas neves profundas de um inverno prematuro, e sofrendo pela falta de alimentos e de roupas, aqui se reuniram para reorganiza��o, a fim de aguardarem os grupos de socorro de Utah, em fins de outubro de 1856. Treze pessoas morreram de frio numa s� noite, e foram aqui enterradas numa vala comum. Duas outras morreram no dia seguinte, e foram enterradas nas proximidades. Do grupo de 404 pessoas, 77 morreram antes que o socorro chegasse. Os sobreviventes Chegaram a Cidade do Lago Salgado a 9 de novembro de 1856".

     Ao contemplar aquele local abandonado e tr�gico, � f�cil de se imaginar a triste situa��o em que se encontravam aqueles emigrantes em 1856 - um grupo de homens, mulheres e crian�as famintos, amontoados em meio a um ermo sombrio e desolado, exaustos por terem andado mais de 1600 quil�metros, muitos deles doentes devido ao cansa�o, e a falta de alimentos, com os carros que haviam puxado estacionados ao lado das tendas improvisadas, erguidas contra a neve.

     Esses dois grupos haviam-se atrasado na partida da cidade de Iowa, porque seus carros n�o ficaram prontos quando esperavam. As autoridades de Lago Salgado n�o foram avisadas de sua vinda e, conseq�entemente, n�o haviam tornado provid�ncias para que fizessem a viagem. Quando as primeiras tempestades se abateram sobre eles no oeste de Missouri, viram-se em circunst�ncias desesperadoras.

     Felizmente, foram alcan�ados no caminho por mission�rios que voltavam numa carro�a leve. Vendo a situa��o desses homens, apressaram-se a alcan�ar Lago Salgado. Encontraram a Igreja em confer�ncia geral, mas quando Brigham Young ouviu seu relato, suspendeu a reuni�o e organizou imediatamente varies carro��es para partirem em socorro dos emigrantes flagelados. Depois de passar por terr�veis experi�ncias, o grupo de socorro alcan�ou o grupo Willie em Rock Creek Hollow. Deixando aux�lio ali, apressaram-se para alcan�ar o grupo Martin, um pouco mais a leste. As tr�gicas experi�ncias desses dois grupos foram as mais lament�veis de todo o movimento M�rmon.

     Se a hist�ria dos pioneiros que viajaram com carros de m�o � um triste cap�tulo da hist�ria M�rmon, muito mais tr�gica � a hist�ria dos �ndios da Am�rica. A filosofia de que "o �nico �ndio bom � o �ndio morto" era a cren�a de grande parte dos homens da fronteira. Em forte contraste, a pol�tica de Brigham Young era de que "� manifestamente mais econ�mico e barato aliment�-los que combat�-los".(1) Seu tratamento generoso aos peles-vermelhas levou o senador Chase, de Ohio, a observar que "nenhum governador jamais fez tanto bem aos �ndios desde William Penn".(2)

     Esse respeito pelos nativos surgiu do Livro de M�rmon. O livro afirma que os �ndios s�o descendentes de Israel. Seus progenitores s�o nele conhecidos como lamanitas e, profeticamente, o livro fala de um futuro de esperan�a para esse povo.

     Mas, apesar de os M�rmons serem pacientes e generosos, ocasionalmente havia dificuldades. Os rebanhos de cavalos e gado eram uma tenta��o a que os �ndios muitas vezes n�o conseguiam resistir. Freq�entemente atacavam as col�nias e houve dois ataques importantes, que ocasionaram grandes perdas. Contudo, em vista do vasto territ�rio que colonizaram, os M�rmons tiveram relativamente poucos problemas com os �ndios. A hist�ria de suas rela��es com os nativos demonstra a sabedoria da pol�tica de Brigham Young.

     Apesar de os M�rmons terem tido poucas dificuldades com os �ndios, estavam destinados a sofrer outras press�es. A 24 de julho de 1857, os habitantes de Lago Salgado celebravam o dia da Independ�ncia, e tamb�m o d�cimo anivers�rio de sua chegada ao vale. Muitos deles haviam ido para este fim a um dos desfiladeiros adjacentes.

     Durante as festividades, um cavaleiro empoeirado e exausto galopou apressado em dire��o a Brigham Young. Trazia nefastas not�cias. Os Estados Unidos da Am�rica estavam enviando um ex�rcito para esmagar os M�rmons! Pelo menos era esta a hist�ria ouvida dos soldados que se dirigiam ao oeste e que se gabavam do que fariam, assim que chegassem a Lago Salgado.

     Isto havia sido motivado pelo fato de dois pretensos oficiais p�blicos terem enviado a Washington not�cias de que os M�rmons estavam em rebeli�o contra os Estados Unidos da Am�rica. Como ficou mais tarde provado, suas hist�rias eram absurdas. Entretanto, baseado nas fracas evid�ncias de tais f�bulas, o Presidente havia ordenado que 2500 soldados dominassem a "Rebeli�o M�rmon".

     Apesar de Brigham Young ter sido empossado legalmente no governo do territ�rio, n�o havia sido informado sobre a vinda das tropas. Sem saber o que esperar, os l�deres M�rmons prepararam-se. Haviam determinado que nenhum outro grupo, armado ou n�o, habitaria novamente as casas que haviam constru�do. Se fosse necess�rio, fariam de Utah o deserto que tinha sido antes de sua chegada.

     V�rios homens foram enviados para fazer o que pudessem, a fim de retardar o ex�rcito e ganhar tempo, na esperan�a de que algo fosse feito para afastar o Presidente daquele loucura. A plan�cie foi queimada e dispersado o gado do ex�rcito. As pontes que os M�rmons constru�ram foram destru�das e as passagens dragadas. Mas nenhuma vida se perdeu. Em virtude desse plano bem executado, o ex�rcito foi obrigado a acampar durante o inverno no territ�rio que ora corresponde ao oeste do estado de Wyoming.

     Mas os M�rmons n�o estavam completamente sem amigos. O coronel Thomas L. Kane, irm�o de Elisha Kent Kane, o famoso explorador do �rtico, conhecera os M�rmons quando viajavam atrav�s de Iowa. Havia testemunhado as injusti�as que sofreram. Fez uma peti��o ao Presidente e foi autorizado a ir a Utah verificar a verdadeira situa��o. Principalmente devido aos seus esfor�os, o Presidente foi persuadido a enviar a Utah uma "comiss�o de paz", na primavera de 1858.

     Brigham Young concordou que o ex�rcito passasse pela cidade, mas n�o que acampasse dentro dos seus limites. E, para que n�o houvesse viola��o do acordo, levou a efeito um piano tra�ado previamente.

     Quando os soldados entraram no vale, encontraram a cidade deserta, com exce��o de alguns guardas armados com rev�lveres e machados afiados. As casas e os celeiros estavam cheios de palha, prontos para serem incendiados em caso de viola��o, e os machados estavam prontos para destruir os pomares.

     O povo havia-se transportado para o sul, deixando seus lares para serem queimados, como j� haviam feito mais de uma vez, anteriormente. Alguns dos oficiais do ex�rcito ficaram profundamente impressionados ao marcharem pelas ruas silenciosas, compreendendo o que sua vinda havia ocasionado.

     O coronel Philip St. George Cooke, que havia comandado o Batalh�o M�rmon em sua longa marcha, e sabia dos males que anteriormente foram impostos a esse povo, descobriu a cabe�a, em respeito reverente.

     Felizmente, n�o houve dificuldade. O ex�rcito acampou a 65 quil�metros a sudoeste da cidade, e o povo voltou a suas casas.

     Joseph Smith foi sucedido por um homem t�o adequado para dirigir a Igreja em sua �poca, como o Profeta havia sido em seus dias. Brigham Young, chamado por um de seus bi�grafos o "Mois�s Moderno", havia conduzido Israel a outra Cana� com seu Mar Morto. Horace Greely, editor do New York Tribune, que entrevistou o l�der M�rmon em 1859, tra�a uma interessante descri��o de sua pessoa:

     "Brigham Young falava prontamente... sem qualquer hesita��o ou reserva e sem desejo aparente de esconder qualquer coisa; e tamb�m n�o se recusou a responder a qualquer de minhas perguntas, nem as classificou de impertinentes. Estava vestido simplesmente, em roupa fina de ver�o, e n�o tinha nenhum aspecto de beato ou de fan�tico. Era um homem de porte, com muito bom humor, forte, de cinq�enta e oito anos de idade, aparentando gozar a vida e sem nenhuma pressa de ir para os c�us. Seus companheiros eram homens simples, evidentemente nascidos e criados numa vida de trabalho, e pareciam menos hip�critas e escroques do que qualquer outro homem que j� conheci".(3)

     Em 1860, foi iniciado o famoso correio a cavalo ("Pony Express"). A correspond�ncia, que a princ�pio havia sido transportada do leste em carro��es vagarosos, puxados a boi, e mais tarde em dilig�ncias, levava agora, de St. Joseph, Missouri, a Lago Salgado, seis dias. A chegada de cada cavalo era um grande acontecimento.

     N�o muito tempo ap�s, os cavaleiros come�aram a entregar correspond�ncias no vale, e not�cias de tremendo significado alcan�aram o oeste: os estados do sul haviam-se separado da Uni�o. Os Estados Unidos estavam sendo dilacerados pela Guerra Civil. Para os M�rmons, estas tr�gicas not�cias foram a confirma��o da profecia feita por Joseph Smith a 25 de dezembro de 1832. Apesar de Utah n�o ser estado, estava ligado a Uni�o em lealdade, o que foi expressado por Brigham Young, na primeira mensagem enviada atrav�s do tel�grafo, em outubro de 1861: "Utah n�o se separou. Permanece fiel a Constitui��o e as leis de nossa p�tria outrora feliz".(4)

     A 10 de maio de 1869, a estrada de ferro Union Pacific, constru�da do rio Missouri para o oeste, e a Central Pacific, em constru��o da Calif�rnia para o leste, encontraram-se em Promontory, Utah. Para os M�rmons, significava o fim do isolamento e das viagens em carro de bois atrav�s das plan�cies. E tamb�m, que encontrariam melhor compreens�o para si pr�prios e para sua obra, com a vinda de milhares de visitantes para testemunharem o milagre que haviam realizado no deserto. A paisagem que o itinerante contemplava nesses vales era, de fato, interessante. Havia dezenas de cidadezinhas limpas, envolvidas por campos irrigados e, al�m destas, os pastes repletos de gado. Na pra�a do Templo, em Lago Salgado, via-se o grande tabern�culo e tamb�m um templo, j� parcialmente constru�do.

     A terra havia sido aberta para o templo em 1853, e uma pedreira inaugurada no desfiladeiro Little Cottonwood, 32 quil�metros ao sul da cidade. O transporte de granito, contudo, apresentou-se como um s�rio problema. Nos primeiros anos de constru��o, quatro juntas de bois levavam quatro dias para ir e voltar, trazendo uma por uma as enormes pedras do alicerce.

     Quando o ex�rcito chegou a Utah, a escava��o e os alicerces foram cobertos, para dar ao local a apar�ncia de um campo rec�m-arado. A constru��o n�o foi reiniciada, ate que a pol�tica do governo fosse determinada.

     O trabalho no templo foi executado com grande carinho. Brigham Young, dirigindo a constru��o do edif�cio, dissera: "Quando o Mil�nio terminar... quero que esse templo ainda permane�a, como altivo monumento a f�, perseveran�a e industriosidade dos santos de Deus nas montanhas, no s�culo dezenove".(5)

     Enquanto o templo em Lago Salgado estava sendo constru�do, foram edificadas estruturas similares em St. George, 525 quil�metros ao sul; em Manti, 250 quil�metros ao sul, e em Logan, 130 quil�metros ao norte.

     Em 1863, enquanto prosseguia a constru��o do Templo de Lago Salgado, foi tamb�m iniciada a constru��o do Tabern�culo, na Pra�a do Templo, que se tornou um dos edif�cios mais famosos da Am�rica.

     As dimens�es do Tabern�culo s�o: 77,5 m de comprimento, por 46,5 m de largura e 24,8 m de altura. O problema de construir-se um teto sobre tal �rea era complicado, pois n�o existiam varet�es de a�o, nem pregos, nem cavilhas. Primeiramente, foram deitados os quarenta e quatro suportes de pedra de cantaria. Estes formaram as paredes do edif�cio, com as portas. Cada um desses pilares tem 6,20 m de altura, 93 cm de largura, e 2,80 m de comprimento. Sobre eles foi constru�do o gigantesco teto. Para form�-lo, foi constru�da uma vasta ponte de madeira, em forma de treli�as. Estas foram ligadas com cavilhas de madeira e couro cru, para evitar que se rachassem. Essa treli�a ocupa um espa�o de 3 m, entre o forro estucado e o telhado. N�o h� pilares interiores segurando o teto.

     A fim de completar esse vasto audit�rio, Brigham Young precisava de um magn�fico �rg�o. Joseph Ridges, construtor de �rg�os, que se havia filiado a Igreja na Austr�lia, foi designado para a tarefa. A madeira apropriada para o instrumento, de gr�nulos longos e retos, foi transportada por juntas de bois de um local situado a 500 quil�metros do vale Pine, perto de St. George, e trabalhada por h�beis artes�os.

     Terminada a constru��o do edif�cio e do �rg�o, em 1870, organizou-se um coro. Assim surgiu o afamado Coro do Tabern�culo, que se tornou mundialmente conhecido, em virtude de seu programa, transmitido semanalmente da Pra�a do Templo, e de seus concertos em muitos pa�ses.

     Em 1875, o Presidente dos Estados Unidos da Am�rica, Ulysses S. Grant, visitou Utah. Ao chegar a Lago Salgado, passou pelas ruas cheias de grande multid�o. Ele havia acreditado nas falsidades a respeito dos M�rmons, que ainda circulavam no leste e, ao passar pelas longas fileiras de crian�as rosadas que acenavam as m�ozinhas e davam vivas, virou-se para o governador que o hospedava e perguntou de quem eram aquelas crian�as. "Filhos de M�rmons", respondeu o governador. Ao ouvir isto, o Presidente observou: "Fui enganado".(6)

     Brigham Young, por esta ocasi�o, tinha 74 anos de idade. Gozava de boa sa�de, mas as prova��es que os anos lhe impuseram eram evidentes. A vida tinha sido uma luta constante, desde quando se filiou a Igreja, em 1833. Resumindo os resultados daquela luta, ele escreveu um artigo para o editor de um jornal de Nova York, atendendo ao pedido que lhe havia sido formulado, sobre o resumo de seus trabalhos.

     "Agrade�o o privil�gio de apresentar os fatos conforme s�o. Terei prazer em fornec�-los sempre que forem solicitados.

���

     Os resultados de meus labores durante vinte e seis anos, resumindo brevemente, s�o: o povoamento deste territ�rio por santos dos �ltimos dias, com cerca de cem mil almas; a funda��o de mais de duzentas cidades, vilas e povoa��es, habitadas por nosso povo, com o estabelecimento de escolas, f�bricas, moinhos e outras institui��es planejadas com o prop�sito de melhorar e beneficiar nossas comunidades.

���

     Toda minha vida � dedicada ao servi�o do Todo-Poderoso e, ao mesmo tempo que lamento que minha miss�o n�o seja melhor compreendida pelo mundo, sei que tempo vir� em que serei compreendido. Deixo para a posteridade o julgamento de minha obra e de seu resultado, que se manifestar�o".(7)

     O fim de seus trabalhos chegou a 29 de agosto de 1877. Alguns dias antes, ele havia ca�do gravemente enfermo, do que os m�dicos mais tarde julgaram ter sido apendicite. Em suas �ltimas palavras, ao expirar, chamava o homem a quem sucedera - "Joseph... Joseph... Joseph..."(8)

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