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A história da Igreja Mórmon acha-se tão entremeada com a doutrina da poligamia, que nenhuma história da Igreja seria completa, sem que se mencionasse, com certo pormenor, esta prática. A doutrina foi primeiramente anunciada por Joseph Smith, em Nauvoo, em 1842. Muitos dos homens ligados a ele conheciam-na e aceitavam-na como um princípio ordenado por Deus. Contudo, só em 1852 foi ensinada publicamente. Devemos dizer, a princípio, que sua prática pelos Mórmons era radicalmente diversa da dos povos orientais. Cada esposa, com seus filhos, ocupava uma casa separada ou, se as esposas vivessem na mesma casa, como acontecia algumas vezes, moravam em aposentos separados. Não se fazia nenhuma distinção entre qualquer das esposas ou dos filhos. O marido sustentava cada família, era responsável pela educação de seus filhos, e dava tanto a eles como as mães, as mesmas vantagens que daria a sua família, se fosse monógamo. Caso não fosse considerado em condições de assim proceder, não lhe era permitido participar do casamento plural. Apesar de a prática ser extremamente limitada - somente uma minoria das famílias a praticavam - e apesar de ser mantida em nível extremamente elevado, era algo de que os inimigos da Igreja podiam facilmente tirar vantagens. A reação contra a doutrina desenvolveu-se em todo o país, e a questão entrou na campanha presidencial em 1860. Quando perguntaram a Lincoln o que pretendia fazer a respeito dos Mórmons, este respondeu: "Deixá-los em paz".(1) Em 1862, o Congresso aprovou uma lei, proibindo a poligamia, mas referia-se a casamentos plurais, e não a relações polígamas. Dez anos mais tarde, o Congresso votou uma lei, proibindo a poligamia. Foi considerada inconstitucional por muitas pessoas no país, e pelos Mórmons em geral. O caso foi levado aos tribunais de Utah, e apresentado ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, resultando desfavoravelmente aos Mórmons. Enquanto ainda existia essa dificuldade, John Taylor foi levado a presidência da Igreja. Os anos seguintes foram, realmente, de grande sofrimento. O Élder Taylor nasceu na Inglaterra, onde foi pregador metodista leigo. Emigrou para o Canadá, por volta de 1832 e, quatro anos mais tarde, ouviu falar do mormonismo pela primeira vez. Quando se ligou a Igreja, o seu espírito arguto, sua mente educada e sua facilidade de expressão fizeram dele notável defensor da causa. Serviu como missionário no Canadá, em sua terra natal, a Inglaterra, e na França. Esse homem adotou como lema: "O Reino de Deus ou Nada".(2) Certa vez, observou: "Não creio numa religião que não possa ter todos os meus afetos, mas sim numa religião pela qual eu possa viver e também morrer. Prefiro ter Deus, a todas as outras influências e poderes, como meu amigo".(3) Com esse espírito, defendeu o mormonismo com tal vigor, que seus amigos da Igreja o denominaram "o campeão da liberdade". Foi ele quem foi ferido quando Joseph e Hyrum Smith tombaram mortos na cadeia de Carthage. Como membro sênior, presidente do Conselho dos Doze Apóstolos, sucedeu a Brigham Young na Presidência da Igreja. Durante seu período administrativo, os Mórmons sentiram novamente a mão amarga da perseguição. Em 1882, o projeto Edmunds foi aprovado pelo Congresso, tornando punível a poligamia com multa ou prisão - geralmente prisão. Nenhum homem que tivesse mais que uma esposa poderia agir como jurado em qualquer dos tribunais de Utah. No estado de Idaho, os que eram membros da Igreja perderam seus privilégios. Os que admitissem acreditar em poligamia, não poderiam tornar-se cidadãos. O Presidente Taylor previra essas dificuldades. Em abril de 1882, aconselhara os santos: "Tratemos isso (o projeto Edmunds) da mesma forma como hoje de manhã, enquanto vínhamos em meio a tempestade de neve - fechemos bem as golas dos casacos... e esperemos, até que a tempestade amaine... Haverá uma tempestade nos Estados Unidos dentro em pouco; e quero que nossos irmãos se preparem para ela. Na ultima conferência... adverti a todos os que tivessem dívidas que aproveitassem esta época de prosperidade e pagassem todos os débitos; para que não se ponham sob servidão ante ninguém, e para que, quando a tempestade vier, estejam preparados para enfrentá-la".(4) A tempestade irrompeu com toda a fúria cinco anos depois. Em 1887, aprovado o projeto Edmund-Tucker, foi dado maior poder aos juízes que julgavam os casos de poligamia. Essa lei também dissolvia a pessoa jurídica de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que recebeu ordens da Corte Suprema para encerrar todos os negócios como sociedade corporativa, além de ter seus bens confiscados pelo governo. A lei foi aplicada com extrema severidade. Milhares de Mórmons perderam seus privilégios de cidadania, não podendo mais votar. Cerca de mil homens foram presos por terem famílias plurais. Os lares foram desfeitos. O processo político foi tirado das mãos do povo. Em meio a essas circunstâncias e acontecimentos, John Taylor faleceu, a 25 de julho de 1887. Foi sucedido por Wilford Woodruff. Assumir a responsabilidade da Igreja sob tais condições não era fácil tarefa. As colônias dos santos dos últimos dias achavam-se agora esparramadas desde o Canadá ate o México. Em todos os Estados Unidos da América, era desenvolvida diligente obra missionária, como também nas ilhas Britânicas, na maioria das nações da Europa e nas Ilhas do Pacífico. Apesar da firme oposição, foram feitos muitos conversos em todas essas missões. Não obstante, a Igreja em Utah perdeu suas propriedades, e muitos de seus líderes encontravam-se nas prisões ou enfrentavam acirrada perseguição. Sob tais condições, Wilford Woodruff assumir a responsabilidade de liderança. Tinha oitenta anos de idade naquela ocasião. Felizmente, havia sido bem treinado para assumir as rédeas da liderança. Tinha-se unido a Igreja somente três anos após sua organização. Marchara de Ohio a Missouri para auxiliar seus irmãos, quando foram expulsos do condado de Jackson, e enfrentara a perseguição no Missouri. Como já vimos, fora um pode-roso missionário na Inglaterra, onde fizera mais de duas mil conversões a Igreja. Havia partido para o oeste com o primeiro grupo. Brigham Young estava em seu carroção, quando pronunciou a frase profética, referindo-se ao Vale do Lago Salgado: "Este é o lugar certo". Wilford Woodruff havia participado da maioria dos acontecimentos importantes ligados ao desenvolvimento do território, desde aquela ocasião. Mas agora, todo o progresso achava-se interrompido, sob a mão pesada da execução da lei. Em revelação dada a Igreja no ano de 1841, o Profeta Joseph Smith havia declarado o seguinte, como palavra de Deus: "Na verdade, na verdade vos digo que, quando a qualquer dos filhos dos homens eu mando que faça um trabalho em meu nome, e aqueles filhos dos homens empregam toda a sua força e tudo o que têm para realizá-lo, e não cessam na sua diligência, e vindo os seus inimigos sobre eles os impedem de realizá-lo, eis que importa a mim não mais requerer das mãos dos filhos dos homens o trabalho, mas aceitar as suas ofertas".(5) Outro ensina-mento fundamental da Igreja cabível nesse caso, é a décima segunda regra de fé da organização. Diz ela: "Cremos na submissão aos reis, presidentes, governadores e magistrados, na obediência, honra e manutenção da lei". O que deveria ser feito sob tais circunstâncias? A prática do casamento plural se iniciara por revelação. E chegou a termo também por revelação. Após sincera oração perante o Senhor, o Presidente Woodruff emitiu, em 6 de outubro de 1890, o que é conhecido na história da Igreja como o "Manifesto". Declarava o fim da prática do casamento plural. Desde esse tempo, a Igreja não tem praticado, nem aprovado tal forma de casamento. A 6 de abril de 1893, declarou-se terminado o grande templo da Cidade do Lago Salgado, e o edifício foi dedicado a Deus como sua casa santa. Antes de sua dedicação, muitos não-membros da Igreja foram convidados a visitar o edifício, e suas várias instalações lhes foram explicadas. Desde a sua dedicação, somente membros dignos têm tido permissão de entrar. Foi justo que Wilford Woodruff tivesse vivido para oferecer a oração dedicatória. Quarenta e seis anos antes, ele havia enterrado a estaca para marcar a localização de onde seria o edifício. Quarenta anos antes, observara o seu início. O seu término e dedicação constituíram-se em um dos maiores acontecimentos da história local. Antes de seu falecimento, em setembro de 1898, o Presidente Woodruff participou de outro acontecimento importante. Apesar de os habitantes do território solicitarem, em 1849, que o mesmo passasse, por decreto, a categoria de estado, isso havia sido negado, em virtude da agitação contra os Mórmons, em toda a nação. A 4 de Janeiro de 1896, Utah foi admitido na União como Estado. Nas cerimônias relacionadas ao acontecimento, o Presidente Woodruff proferiu uma oração que diz muito a respeito da visão daquele homem: "Deus Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra. A ti, que és o Deus das nações e o Pai dos espíritos de todos os homens, nós nos curvamos humildemente nesta grande ocasião... Quando contemplamos estes férteis vales com seus produtos abundantes dos campos e das hortas... seus lares agradáveis e seus habitantes prósperos... e contrastamos isto com as plagas estéreis e silentes que saudaram os olhos dos pioneiros quando contemplaram pela primeira vez a terra seca, há menos de meio século, nossas almas se enchem de assombro e de louvor... E agora, quando os esforços de várias décadas para alcançar a inestimável graça de perfeita liberdade política... foram finalmente coroados de glorioso sucesso, sentimos que a ti, nosso Pai e nosso Deus, devemos esta preciosa bênção... Oramos que abençoes o Presidente dos
Estados Unidos e seu gabinete, para que possam ser inspirados a dirigir os
negócios desta grande nação com sabedoria, justiça e eqüidade, que seus
direitos sejam mantidos aqui e em outras partes, e que todos os cidadãos possam
desfrutar dos privilégios dos homens livres... E possam os privilégios de um
governo de liberdade estender-se a toda terra e clima, ate que a tirania e a
opressão sejam derrubadas, para não mais se erguerem, ate que as nações se
unam pelo bem comum, para que a guerra possa cessar, e se cale a voz da
contenda, e prevaleça a fraternidade universal, e que Tu, ó Deus, sejas
reverenciado em toda parte como Pai Eterno e o Rei da paz!"(6) |
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