Os anos em que as atividades do mormonismo centralizaram-se principalmente em Ohio e Missouri, foram os mais importantes e os mais tr�gicos da hist�ria do movimento. Durante essa �poca, a organiza��o b�sica da Igreja foi estabelecida; muitas doutrinas fundamentais e not�veis foram pronunciadas por Joseph Smith; a obra alcan�ou o exterior pela primeira vez; e, concomitantemente com o seu desenvolvimento, a Igreja foi objeto de intensa persegui��o que custou a vida de muitos e com a qual os santos muito sofreram.

     Enquanto se verificavam simultaneamente acontecimentos de import�ncia hist�rica em ambas as localidades, as comunica��es entre os dois grupos eram limitadas, em virtude das dificuldades de transporte, apesar de os oficiais da Igreja viajarem de uma localidade a outra de acordo com a necessidade. Para clareza, este cap�tulo discutir� os acontecimentos que tiveram lugar em Ohio, de 1831 a 1838, e o cap�tulo seguinte tratar� da hist�ria do Missouri, no mesmo per�odo.

     Um dos projetos iniciados por Joseph Smith antes de partir para Ohio, foi uma revis�o da B�blia em ingl�s. Ele n�o desacreditava da tradu��o do rei Tiago,* mas sabia, como desde a� tem sido reconhecido, que certos erros e omiss�es existentes naquele registro haviam conduzido a numerosas dificuldades entre as seitas do cristianismo. Havia recebido sua primeira compreens�o deste fato pelo anjo Mor�ni que, em sua primeira visita em 1823, mencionara a Joseph Smith trechos das escrituras com o texto um pouco diferente da linguagem contida na vers�o do rei Tiago.

     Ao chegar a Ohio, Joseph continuou com essa incumb�ncia, trabalhando tanto quanto o tempo permitia. As altera��es que fez indicam algumas interessantes interpreta��es de partes da escritura.

* N.T. = A vers�o da B�blia, feita sob a dire��o do rei Tiago, da Inglaterra, � de uso oficial, na Igreja, nos pa�ses de l�ngua inglesa. A vers�o adotada oficialmente, em portugu�s, � a de Jo�o Ferreira de Almeida.

     Inevitavelmente, como decorr�ncia do crescimento da Igreja, surgiram numerosas perguntas e problemas. Joseph buscou o Senhor, para obter orienta��o - e a recebeu. A maior parte das revela��es, que desde a� t�m regulado o funcionamento da Igreja, foram recebidas durante o per�odo Ohio-Missouri.

     Essas revela��es tratam de uma grande variedade de assuntos - a idade para o batismo; a organiza��o e o mecanismo do governo eclesi�stico; o chamado de mission�rios para trabalhos especiais; conselhos para uma vida saud�vel; profecia sobre as guerras que afligiriam as na��es; as glorias do reino na vida vindoura e uma variedade de outros assuntos. Todos refletem a amplitude do evangelho e a largueza de pensamento do Profeta. Somente alguns aspectos podem ser mencionados neste breve texto.

     A quest�o sobre a idade em que o indiv�duo deve ser batizado, tem sido fonte de discuss�es intermin�veis entre os povos crist�os. A pr�tica de batizar crian�as foi iniciada no segundo ou terceiro s�culos e tem continuado ate agora, apesar de n�o encontrar san��o nas escrituras. Na realidade, um dos prop�sitos fundamentais do batismo - a remiss�o dos pecados - indica que quando algu�m � batizado deve ser capaz de se arrepender e de viver uma vida melhor. O Livro de M�rmon ensina claramente contra o batismo de crian�as, como uma nega��o da miseric�rdia de Cristo. Em novembro de 1831, Joseph recebeu uma revela��o, estabelecendo oito anos como a idade em que as crian�as devem ser batizadas.

     A 16 de fevereiro de 1832, Joseph Smith e Sidney Rigdon contemplaram em vis�o as glorias eternas. Ao registrarem esta experi�ncia, testemunharam da realidade e personalidade do Salvador:

     "E agora, depois dos muitos testemunhos que se prestaram dele, este � o testemunho, ultimo de todos, que n�s damos dele: que ele vive!

     Pois vimo-lo, mesmo a direita de Deus; e ouvimos a voz testificando que ele � o Unig�nito do Pai -

     Que por ele, por meio dele, e dele, s�o e foram os mundos criados, e os seus habitantes s�o filhos e filhas gerados para Deus".(1)

     Ambos descrevem, ent�o, o que viram sobre os reinos da eternidade. Os homens, na pr�xima vida, n�o ser�o arbitrariamente designados para o c�u ou para o inferno. O Salvador disse: "Na casa de meu Pai h� muitas moradas".(2) Paulo escreveu: "Uma � a gloria do sol, outra a gloria da lua, e outra a gloria das estrelas".(3) No outro mundo, de acordo com os ensinamentos do Profeta, h� varies reinos e graus de gloria. Todos os homens ressuscitar�o pela expia��o de Cristo, mas ser�o graduados na pr�xima exist�ncia de acordo com a obedi�ncia aos manda-mentos de Deus.

     Tais ensinamentos, ao serem encarados pelo cristianismo tradicional, acirraram a indigna��o dos intolerantes. Na noite de 24 de mar�o de 1832, uma multid�o invadiu a resid�ncia de Joseph Smith, enquanto dormia, e arrastou-o para fora de casa; espancaram-no severamente, sufocando-o ate se tornar inconsciente e ent�o o cobriram com piche e penas, abandonando-o para morrer. Mas ele voltou a si, e com muita dificuldade retornou a casa. Sendo o dia seguinte domingo, pregou um serm�o, e na congrega��o achavam-se alguns dos que tinham estado com a multid�o na noite anterior. Ao terminar a reuni�o, batizou onze pessoas.

     Na mesma noite, Sidney Rigdon foi tamb�m atacado pela turba. Arrastaram-no pelos calcanhares por certa dist�ncia, fazendo com que sua cabe�a batesse contra o ch�o gelado. Durante v�rios dias ele delirou, e parecia que n�o sobreviveria. Conseguiu, entretanto, recuperar-se.

     No dia de Natal do mesmo ano, 1832, Joseph Smith fez uma not�vel profecia, iniciando-a com as palavras: "Assim diz o Senhor". Profetizou que a guerra sobreviria no mundo, "... a come�ar pela rebeli�o de Carolina do Sul... E tempo vir� em que as guerras se esparramar�o sobre todas as na��es..." Disse que os estados do sul (dos Estados Unidos) se dividiriam contra os do norte, e que os primeiros recorreriam a Gr�-Bretanha. Viria o tempo em que a Gr�-Bretanha recorreria a "... algumas na��es, a fim de se defender contra outras, e ent�o as guerras se esparramar�o sobre todas as na��es... E assim, com a espada e o derramamento de sangue, os habitantes da terra lamentar�o..."(4)

     Vinte e oito anos mais tarde, em dezembro de 1860, o estado de Carolina do Sul separou-se da Uni�o. A 12 de abril de 1861, foi atacado o forte Sumpter, na ba�a de Charleston, e se iniciou terr�vel guerra civil. As for�as dos estados do sul lan�aram-se contra as do norte, e os sulistas, por sua vez, recorreram a Gr�-Bretanha. Nada precisa ser dito aqui sobre guerras desde aquele tempo, nas quais a Gr�-Bretanha tem recorrido a outras na��es, nem sobre lamenta��es e derramamentos de sangue que se t�m verificado na terra. A hist�ria � bem conhecida de todos.

     Em fevereiro de 1833, outra interessante revela��o foi recebida e proclamada ao povo. Encontra-se na se��o 89 de Doutrina e Conv�nios, e � conhecida pelos M�rmons como a Palavra de Sabedoria. Constituiu-se, essencialmente, num c�digo de sa�de. Nela os santos s�o admoestados contra o uso de fumo, bebidas alco�licas, "bebidas quentes" e ingest�o abusiva de carne. Aconselha-se o uso abundante de gr�os, frutas, verduras e legumes. "Grandes tesouros de conhecimento", juntamente com b�n��os de sa�de, s�o prometidos a quem obedecer a esses princ�pios. Trata-se de um documento fora do comum, cujos princ�pios t�m sido confirmados por nutricionistas e m�dicos da atualidade. A aplica��o de seus ensinamentos tem produzido um efeito salutar sobre as condi��es f�sicas daqueles que os seguem.

     Nesse mesmo per�odo, Joseph Smith organizou a "Escola dos Profetas". Atrav�s de revela��o, esclareceu-se que aqueles que fossem ensinar as boas novas de restaura��o do evangelho, deveriam primeiramente preparar-se "...pelo estudo e... pela f�".(5) Isto n�o queria dizer que aqueles que se achavam empenhados no minist�rio de Cristo, devessem ser treinados em semin�rios para tal prop�sito, por voca��o, como quem escolhe a profiss�o de medico ou advogado. Cada homem portador do sacerd�cio teria a responsabilidade de aprender o suficiente sobre o trabalho, a fim de estar capacitado a expor e defender a doutrina.

     Foi esclarecido pelo Profeta que a educa��o deveria ser uma das preocupa��es da religi�o. Entre seus ensinamentos, acha-se o princ�pio de que "a gloria de Deus � intelig�ncia".(6) E "qualquer princ�pio de intelig�ncia que alcan�armos nesta vida, surgir� conosco na ressurrei��o".(7) Uma das justas preocupa��es da Igreja era, portanto, o amplo desenvolvimento da mente e, para esse 'fim, foi criada a Escola dos Prof tas. L� n�o ha via somente aulas de teologia; era tamb�m mantido um renomado ling�ista para ensinar o hebraico. Essa foi uma not�vel inova��o na educa��o de adultos na fronteira do Ohio, e constituiu o in�cio do vasto sistema educacional M�rmon.

     Na �poca em que a Igreja foi estabelecida, estava sob a dire��o de um �lder presidente. Mas, atrav�s de revela��o, outros of�cios foram acrescentados, a medida que o n�mero de membros aumentava. Tr�s of�cios distintos foram estabelecidos no Sacerd�cio Aar�nico: di�cono, mestre e sacerdote. Em 4 de fevereiro de 1831, Edward Partridge foi nomeado "bispo para a Igreja",(8) e no dia 25 de Janeiro de 1832, Joseph Smith foi apoiado como presidente do Sumo Sacerd�cio. Posteriormente, nomearam-se dois conselheiros para servir juntamente com ele, e esses tr�s constitu�ram o que desde a� � conhecido como a Primeira Presid�ncia da Igreja.

     Em fevereiro de 1835, foi escolhido um Conselho de Doze Ap�stolos, e setentas foram chamados a assisti-los. Em 1833, o pai do Profeta foi ordenado Patriarca da Igreja, que, segundo Joseph Smith explicou, corresponde ao antigo of�cio de evangelista.

     Com todos estes of�cios do Sacerd�cio estabelecidos e preenchidos, a mesma organiza��o b�sica existente na igreja primitiva, com ap�stolos, setentas, �lderes, sumos sacerdotes, mestres, di�conos, evangelistas e bispos, encontrava-se novamente na terra.

     Em novembro de 1833, Brigham Young e Heber C. Kimball, dois homens que desempenhariam, mais tarde, papel preponderante no mormonismo, deixaram seus lares em Mendon, Nova York, e viajaram ate Kirtland, para encontrar Joseph Smith pela primeira vez. Encontraram o Profeta no bosque, abatendo e transportando madeira. Ali come�ou uma longa e dedicada amizade entre Joseph Smith e o homem que iria suced�-lo na presid�ncia da Igreja. Quando se verificou a sucess�o, Heber C. Kimball tornou-se conselheiro de Brigham Young na Primeira Presid�ncia.

     Uma das not�veis realiza��es dos santos, enquanto se encontravam em Kirtland, foi a constru��o de um templo de Deus.

     No dia 4 de maio de 1833, foi designado um comit� para iniciar uma coleta de fundos para a constru��o do templo. Deve-se notar que este povo era financeiramente pobre. Seus l�deres vinham devotando tempo e energias ao trabalho mission�rio. Al�m disso, haviam-se mudado recentemente de Nova York para Ohio, e os recursos esgotaram-se principalmente na compra de terras. N�o obstante, consideravam como mandamento as instru��es que haviam recebido de construir uma casa sagrada e empenharam-se na tarefa.

     Surgiu uma quest�o sobre que esp�cie de material usar. Alguns pensavam que o edif�cio deveria ser de madeira, ou mesmo de troncos, como era o costume na fronteira. Mas Joseph Lhes disse que n�o estavam construindo uma casa para o homem, mas para Deus. "Construiremos n�s", perguntou ele, "uma casa de madeira para Deus? N�o, tenho melhores pianos. Tenho um projeto para a Casa do Senhor, que ele mesmo me deu; e logo vereis por isto a diferen�a entre nossos c�lculos e a sua concep��o das coisas".(9) Apresentou, ent�o, o piano. Isso aconteceu na noite de s�bado, e na manh� da segunda-feira seguinte, foi iniciado o trabalho.

     Durante tr�s anos, os santos trabalharam com todas as suas for�as e meios para completar a constru��o. Os homens trabalhavam nas paredes, enquanto as mulheres fiavam l� e teciam fazendas. A respeito daqueles dias de prova��o, a m�e de Joseph escreve: "Quantas vezes cedi minha casa para acomodar os ir-m�os e estendi um cobertor no ch�o para mim e meu marido, enquanto Joseph e Emma dormiam no mesmo ch�o, com nada al�m de suas capas servindo tanto de cama como de coberta".(10)

     O templo tinha as dimens�es aproximadas de 18 x 24 m, 15 m de altura ate o forro, e 33 m ate o topo da torre. As paredes eram constru�das de pedra, e o interior acabado com madeira natural, maravilhosamente trabalhada. Nenhum esfor�o foi poupado para tornar a casa digna da Divindade.

     Ao examinar o edif�cio, como se encontra agora, um articulista escreveu: "A execu��o, esculturas, relevos etc., demonstram excepcional habilidade. Muitos motivos s�o usados nas diversas partes, variando em linha, contorno e desenho, mas combinam-se harmoniosamente... � pouco prov�vel que os trabalhadores empenhados na constru��o fossem h�beis artes�os; n�o obstante, o resultado � t�o harmonioso, que nos faz pensar se eles n�o teriam sido inspirados, como os construtores das catedrais da antig�idade".(11)

     O edif�cio foi terminado e preparado para a dedica��o em 27 de mar�o de 1836. Foi um dia muito importante - o cl�max de tr�s anos de trabalho e sacrif�cios. Os santos se reuniram, vindos de perto e de longe. Cerca de mil deles puderam entrar no edif�cio, e foi realizada na escola uma reuni�o com os restantes.

     Os servi�os dedicat�rios duraram quase o dia todo, desde as nove horas da manh� ate as quatro da tarde, com somente um breve intervalo. O Profeta proferiu a ora��o dedicat�ria, que em si mesma constitui uma impressionante obra liter�ria. O sacramento da ceia do Senhor foi, ent�o, administrado.

     Considerando que nem todos os que desejavam participar podiam ser acomodados nos servi�os de dedica��o, estes foram repetidos, e durante muitos dias, v�rias esp�cies de reuni�es foram realizadas no edif�cio e experimentadas muitas manifesta��es espirituais. O Profeta comparou-o ao dia de Pentecostes.

     A mais significativa dessas experi�ncias ocorreu no domingo, 3 de abril. Joseph e Oliver Cowdery achavam-se entregues a ora��es, ante o p�lpito do templo, que havia sido separado do sal�o por meio de cortinas. Quando se levantaram da ora��o, tiveram uma vis�o que se acha descrita em Doutrina e Conv�nios da seguinte maneira:

     "O v�u foi retirado de nossas mentes, e abertos os olhos do nosso entendimento.

     Vimos diante de n�s o Senhor, de p�, no parapeito do p�lpito; e sob seus p�s, um cal�amento de ouro puro, da cor de �mbar.

     Seus olhos eram como a labareda de fogo; seus cabelos eram brancos como a pura neve; o semblante resplandecia mais do que o sol; e a sua voz era como o som de muitas �guas, mesmo a voz de Jeov�, que dizia:

     Sou o primeiro e o �ltimo; sou o que vive; sou o que foi morto; sou o vosso advogado junto ao Pai".(12)

     Ao crescer a Igreja em n�mero e em poder espiritual, as for�as que trabalhavam contra ela tamb�m se tornaram mais vigorosas. No princ�pio do ano de 1837, foi constitu�do um banco em Kirtland, em cuja administra��o se encontravam autoridades da Igreja. Pouco tempo depois, uma onda de depress�o alastrou-se pelo pa�s. Durante os meses de mar�o e abril, as fal�ncias, s� em Nova York, ultrapassaram cem milh�es de d�lares. A institui��o de Kirtland seguiu as outras, e alguns dos membros da Igreja que perderam seu dinheiro no desastre, perderam tamb�m a f�. Foi um per�odo desanimador na hist�ria do mormonismo.

     Nesse �nterim, foram chamados �lderes para irem a Gr�-Bretanha e iniciarem a obra mission�ria. Heber C. Kimball foi nomeado para chefiar essa miss�o, e Orson Hyde, o dr. Willard Richards, e Joseph Fielding foram chamados para acompanh�-lo. Deveriam encontrar-se com John Goodson, Isaac Russell e John Snyder, na cidade de Nova York, e da� seguir para seu campo de trabalho.

     Deixaram suas casas e familiares a 13 de junho de 1837. Tinham pouco dinheiro e encontraram muitas dificuldades para alcan�ar Liverpool, onde aportaram a 20 de julho de 1837. De Liverpool, viajaram para Preston, cidade manufatureira que ficava cerca de 48 quil�metros ao norte, onde o irm�o de Joseph Fielding era pastor de uma capela de Vauxhall. Os mission�rios tiveram a oportunidade de falar na capela no domingo seguinte. Assim, iniciou-se a obra da Igreja nas Ilhas Brit�nicas, resultando, nos anos seguintes, no batismo de milhares, muitos dos quais emigraram para os Estados Unidos, e se tornaram grandes l�deres.

     Enquanto isso, em Kirtland, aumentava a persegui��o, e bandos de religiosos fan�ticos destru�am as propriedades. O Profeta n�o podia encontrar paz e, a 12 de Janeiro de 1838, acompanhado por Sidney Rigdon, partiu para o Missouri, para jamais voltar a Kirtland, onde uma parte t�o grande e importante da obra havia sido realizada.

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