Voltemos ao ano de 1831. O oeste de Missouri era, ent�o, uma bela plan�cie de suaves encostas e de vales cobertos de �rvores. Seu solo rico, sua agrad�vel paisagem e clima ameno, tornaram-no uma terra de grandes oportunidades. Achava-se colonizado esparsamente. Em Independence, sede do condado de Jackson, por exemplo, havia somente o edif�cio do tribunal, dois ou tr�s armaz�ns e umas poucas casas, na maioria constru�das de troncos.

     Joseph Smith afirmou a seu povo que naquela �rea, entre o Atl�ntico e o Pac�fico, construiriam a sua Si�o, uma cidade de Deus.

     Os mission�rios que haviam sido enviados aos �ndios, voltaram, relatando a natureza da terra e, em julho de 1831, o primeiro grupo de santos chegou ao oeste do Missouri. Cerca de sessenta deles tinham vindo num s� grupo, de Colesville, Nova York. A 20 quil�metros a oeste de Independence, no que agora � parte da cidade de Kansas, deitaram os alicerces de uma nova coloniza��o.

     Outros membros da Igreja seguiram logo ap�s. Joseph Smith, que ent�o se encontrava em Missouri, declarou que compraria terras suficientes para que pudessem viver juntos como um povo. Determinou o local onde deveriam construir seu belo templo, dedicado a Deus, como sua casa santa. Este deveria constituir a coroa de gloria da cidade de Si�o.

     O Profeta tamb�m planejou a cidade. Sua concep��o era inovadora e significativa em planejamento urbano. N�o haveria �reas pobres e escuras, t�o comuns nas cidades daqueles dias. Por outro lado, a fam�lia do agricultor n�o viveria t�o isolada e s�. A cidade deveria ter cerca de dois quil�metros quadrados, divididos em lotes de dez acres, com ruas de 40 metros de largura, As quadras centrais seriam reservadas para edif�cios p�blicos. Os celeiros e est�bulos deveriam ser constru�dos nas terras adjacentes as fazendas. "O cultivador do solo, bem como o comerciante e o mec�nico, viver�o na cidade", disse o Profeta. "O agricultor e sua fam�lia, portanto, gozar�o das vantagens das escolas, confer�ncias e outras reuni�es. Sua casa n�o mais ser� isolada, e a sua fam�lia n�o ser�o negados os benef�cios da sociedade, que tem sido e sempre ser� a grande educadora da ra�a humana. Gozar�o dos mesmos privil�gios da sociedade e poder�o cercar seus lares com a mesma vida intelectual e fineza social que forem encontradas na casa do comerciante, do banqueiro ou do profissional.

     Quando este bloco for assim preenchido", continuou o Profeta, "ser� constru�do um outro da mesma forma, ...para assim encher o mundo nestes �ltimos dias".(1)

     Conquanto n�o tivesse oportunidade de por o piano em pr�tica em todos os detalhes, seus princ�pios b�sicos tornaram poss�vel uma bem sucedida coloniza��o do oeste, anos mais tarde. A pr�tica comum da �poca era que cada homem se estabelecesse numa vasta �rea de terras, onde ficava isolado dos vizinhos. Mas os M�rmons iniciaram a coloniza��o da nova terra em grupos, construindo comunidades onde as casas eram constru�das junto a Igreja, escola e oportunidades sociais, e os s�tios nos seus arredores.

     Entre as primeiras realiza��es da nova coloniza��o, conta-se o estabelecimento de uma impressora para a publica��o de um peri�dico, "The Evening and Morning Star" (A Estrela Vespertina e Matutina) - bem como outras publica��es. William W. Phelps foi nomeado editor do Star. Antes de sua convers�o ao mormonismo, tinha sido editor de um jornal em Nova York. Era homem de grande capacidade intelectual, e seu jornal logo se tornou uma for�a importante na comunidade.

     Desejosos de construir a sua Si�o, os santos come�aram com brilhantes perspectivas a frente. Logo, por�m, depararam-se com s�rias dificuldades. Os colonizadores que os precederam n�o gostavam de sua religi�o, nem de sua industriosidade. Dois ministros, principalmente, achavam-se empenhados em criar oposi��o. Os M�rmons eram descritos como "inimigos comuns da humanidade".(2) Outra fonte de atritos foi a diferen�a pol�tica. A maioria dos M�rmons provinha do nordeste, onde havia estados anti-escravagistas, enquanto o Missouri estava ligado ao sul, na condi��o de pr�-escravagista. Esta, e outras diferen�as semelhantes, foram o bastante para suscitar o antagonismo dos antigos colonizadores.

     A primeira indica��o real de dificuldades verificou-se uma noite, na primavera de 1832, quando uma turba quebrou as janelas de v�rias casas de M�rmons. No outono do mesmo ano, queimaram pilhas de feno e atiraram contra as resid�ncias. Estes atos nada mais eram que o in�cio de uma tempestade de viol�ncia, que deveria varrer os M�rmons do Estado do Missouri.

     Em julho de 1833, os antigos colonizadores, influenciados por agitadores, reuniram-se em Independence, para determinar meios de se livrarem dos M�rmons, "pacificamente, se pudermos, e a for�a, se necess�rio".(3) N�o havia sequer evid�ncia de que os M�rmons tivessem violado qualquer lei, mas simplesmente porque eram julgados como um mal que penetrara entre eles, e que precisava ser removido de qualquer forma. Exigiram que daquela data em diante, nenhum M�rmon pudesse fixar-se no condado de Jackson; que os que ali residissem, deveriam prometer mudar-se do lugar; e que deveriam deixar de imprimir seu jornal; e que os outros neg�cios deveriam cessar. Foi dado o ultimato e nomeou-se um comit� de doze membros, para apresent�-lo aos M�rmons.

     A reuni�o foi suspensa por duas horas, a fim de que o comit� fosse apresentar o manifesto, e voltasse com a resposta.

     Quando a notifica��o foi apresentada aos M�rmons, eles n�o se achavam em condi��es de dar resposta. As exig�ncias eram inteiramente ilegais. Os santos haviam comprado a terra na qual viviam; n�o haviam transgredido nenhuma lei, nem eram acusados de hav�-lo feito. Foram tornados de surpresa, e pediram tr�s meses de prazo para considerar o assunto. Isto Lhes foi negado imediatamente. Pediram, ent�o, dez dias, e receberam resposta de que quinze minutos era tempo mais do que suficiente. Obviamente, os M�rmons n�o podiam concordar com tais exig�ncias.

     O comit� voltou a reuni�o e apresentou o relat�rio. O resultado foi a decis�o de se destruir a impressora. Tr�s dias mais tarde, uma multid�o de quinhentos homens passou pelas ruas de Independence, agitando uma bandeira vermelha, e brandindo pistolas, peda�os de pau e chicotes. Destru�ram a impressora e juraram que fariam desaparecer os M�rmons do condado de Jackson. Zombaram de todos os pedidos de miseric�rdia e justi�a. Num esfor�o para salvar seus companheiros, seis dos principais l�deres da Igreja ofereceram-se como ref�ns pelos santos. Disseram estar dispostos a ser espancados e mesmos mortos, se isso satisfizesse o populacho.

     Praguejando, responderam que n�o somente eles, mas tamb�m todos os seus companheiros seriam a�oitados e expulsos, a menos que deixassem o condado.

     Reconhecendo-se indefesos e sob coa��o, os M�rmons concordaram em partir no m�s de abril de 1834. Com este acordo, a multid�o se dispersou. Mas n�o levou muito tempo para que voltassem a invadir as casas e amea�ar os santos. Sabendo que n�o haveria seguran�a para eles, apelaram ao governador do estado. Este respondeu-lhes que deveriam levar o caso aos tribunais locais. Tal sugest�o era rid�cula, em vista do fato de o juiz do tribunal do condado, dois ju�zes de paz e outros oficiais do condado serem os l�deres da turba. N�o obstante, os M�rmons contrataram um advogado para defender sua causa.

     Como era de se esperar, nenhum resultado foi obtido, a n�o ser o de incitar ainda mais a multid�o. Em 31 de outubro, iniciou-se um reino de terror. Dia e noite, homens armados passavam pelas ruas de Independence, incendiando casas, destruindo mob�lias, planta��es de milho, a�oitando e assaltando homens e mulheres.

     Sem saber para onde se dirigir, os habitantes fugiram para o norte, rumo as cabeceiras desoladas dos rios. A caminhada sobre o ch�o gelado e coberto de pedras foi marcada pelo sangue de seus p�s dilacerados. Alguns perderam a vida, como resultado de doen�as e de fome. Felizmente, seus irm�os que se encontravam em Ohio, ao saberem das dificuldades, trouxeram aux�lio e conforto o mais depressa poss�vel. Quando chegaram, mais de duzentos lares j� haviam sido destru�dos. E, ainda mais tr�gico, fora desfeito o sonho de construir Si�o.

Os santos encontraram ref�gio tempor�rio no condado de Clay, na outra margem do rio Missouri, do lado oposto de Jackson. Para manterem a si mesmos e suas fam�lias, trabalhavam para os colonizadores daquela �rea, fazendo toda esp�cie de trabalho, desde cortar madeira, ate ensinar em escolas. Constru�ram casas provis�rias de troncos, nas quais viviam em condi��es prec�rias, ate que pudessem fixar-se de modo mais permanente.

     A nordeste do condado de Clay, havia uma plan�cie selvagem e inexplorada em sua quase totalidade. Nela viram alguns uma terra de oportunidade, enquanto outros viram um lugar para p�r os M�rmons, onde estariam a sua pr�pria merc�.

     Em dezembro de 1836, a legislatura de Missouri criou o condado de Caldwell, tendo em mente que se deveria tornar "um condado M�rmon". Com sua caracter�stica iniciativa, os santos compraram a terra e come�aram a cultiv�-la e a construir cidades. Sua col�nia principal era Far West, e outra col�nia importante foi iniciada ao norte, em Diahman. Dois anos ap�s a cria��o do condado, Far West tinha uma popula��o de cinco mil habitantes, dois hot�is, uma imprensa, oficinas de ferreiro, armaz�ns e 150 casas. Muito do seu crescimento foi devido ao in-fluxo de membros da Igreja, vindo de Ohio, inclusive Joseph Smith que, como vimos, partiu de Kirtland em Janeiro de 1838.

     Durante este per�odo de intensa atividade, o Profeta pronunciou, como revela��o, a lei do d�zimo, determinando que todos os membros deveriam pagar um d�cimo de sua renda a Igreja, para sustent�-la.

     Isto se constituiu, naturalmente, apenas no revigoramento de uma lei antiga. Como em outros assumes de doutrina e pr�tica dos M�rmons, a institui��o do d�zimo em 1838 foi somente a restaura��o de um princ�pio que havia sido pronunciado nos dias b�blicos. Havia sido a lei de Deus a seu povo nos dias de Abra�o e dos profetas que o haviam sucedido, e agora Deus havia declarado novamente que seu povo deveria pagar o d�zimo, "... e isto Lhes ser� uma lei perp�tua".(4)

     No dia 4 de julho de 1838, os M�rmons de Far West celebraram o dia da independ�ncia nacional e a liberdade de que gozavam. No mesmo dia, lan�aram os alicerces de um novo templo. Deveria medir cerca de 33 m de comprimento por 24 de largura, maior do que a estrutura de Kirtland. Banda de m�sica e desfiles, seguidos de uma reverente dedica��o, tornaram esse dia memor�vel.

     Esta paz, por�m, e este progresso que celebraram, deveria durar pouco. Seus velhos inimigos, ao notarem a sempre crescente popula��o M�rmon, come�aram a semear novamente a dissens�o. Deve-se lembrar que o Missouri era ent�o fronteira do oeste. A fronteira era geralmente caracterizada por um esp�rito de aus�ncia de leis, pelo fanatismo origin�rio da ignor�ncia e de recursos sociais extremamente limitados, pela suspeita e pelo ci�me. Em tal atmosfera, era f�cil instigar intoler�ncia e �dio.

     Tal agita��o levou a um conflito na cidade de Gallatin, a 6 de agosto de 1838, que n�o teria tanta import�ncia, n�o fossem as terr�veis conseq��ncias que acarretou. Um candidato a legislatura estadual, n�o M�rmon, instigou os antigos colonizadores, dizendo que, se os M�rmons tivessem direito de votar, os antigos colonizadores logo perderiam seus direitos. Era simplesmente uma quest�o pol�tica. Quando os M�rmons foram depositar suas c�dulas de vota��o, viram-se terminantemente proibidos de faz�-lo.

     Chegou a Far West um relate exagerado do acontecido, e um grupo de membros da Igreja foi investigar. Nenhuma atitude foi tomada e, na volta para Far West, pararam em casa de Adam Black, juiz de paz, e dele obtiveram uma declara��o, afirmando possuir inten��es pac�ficas para com os M�rmons e que n�o se ligaria a qualquer turba.

     Mas os inimigos dos santos logo tiraram partido dessa viagem do grupo de Far West a Gallatin. Varies deles, inclusive o pr�prio juiz Black, assinaram uma declara��o, afirmando que quinhentos M�rmons armados tinham ido a Gallatin para prejudicar os que n�o eram M�rmons naquela �rea. Esta falsidade agiu como um f�sforo num monte de palha. Boato ap�s boato resultou em enorme quantidade de ofensas imagin�rias.

     Para agravar ainda mais a situa��o, um ferrenho anti-M�rmon dos dias do condado de Jackson, Lilburn W. Boggs, tornou-se governador. Os rebeldes enviaram-lhe not�cias de que os M�rmons se achavam em insurrei��o; que se recusavam a se submeter as leis, e que se estavam preparando para fazer guerra contra os antigos colonizadores.

     Grupos amea�adores cavalgaram novamente pelas comunidades M�rmons, determinados a desencadear uma "guerra de exterm�nio". Quando um grupo de cidad�os pac�ficos que n�o eram M�rmons apelou ao governador, consta ter ele respondido: "A disputa � entre os M�rmons e a multid�o, e eles podem decidi-la, lutando".(5)

     Com tal assentimento, o terror alastrou-se como fogo sob vento forte. Quando os M�rmons tentaram defender-se, isso imediatamente se tornou uma desculpa para o governador emitir uma ordem desumana e ilegal de exterm�nio. "Os M�rmons devem ser tratados como inimigos e, se necess�rio, exterminados ou expulsos do estado, para a tranq�ilidade p�blica".(6)

     No dia 31 de outubro, um grupo de soldados aproximou-se da cidade de Far West. O coronel George M. Hinkle, que chefiava os defensores da cidade, pediu uma entrevista com o general Samuel D. Lucas, comandante dos soldados. Durante esta entrevista, ele concordou em entregar os l�deres M�rmons, sem mesmo consultar esses homens. Essa trai��o resultou na entrega de Joseph Smith, Hyrum Smith, Sidney Rigdon, Parley P. Pratt e Lyman Wight.

     Foi realizado um julgamento militar naquela noite, e os prisioneiros foram sentenciados a morte ao nascer do sol, na pra�a p�blica de Far West. O general A. W. Doniphan foi encarregado da execu��o.

     Ao receber a ordem, Doniphan, indignado, respondeu: "� assassinato a sangue frio. N�o obedecerei a ordem. Minha brigada marchar� para (a cidade de) Liberty amanh� de manh�, as oito horas; e se executar esses homens, eu o acusarei como respons�vel perante um tribunal terreno. Que Deus me ajude a faz�-lo".(7)

     Doniphan jamais foi intimado a responder por esta insubordina��o que salvou a vida do Profeta. Quanto ao l�der M�rmon e seus companheiros, foram lan�ados numa cela escura e imunda, onde permaneceram por mais de cinco meses.

     Em n�mero muito menor, e tendo-lhes sido negada qualquer prote��o legal, quinze mil membros da Igreja abandonaram seus lares e propriedades em Missouri, com um preju�zo, na �poca, avaliado em um milh�o e meio de d�lares. Durante o inverno de 1838-39, caminharam penosamente rumo leste, em dire��o a Illinois, sem saber mais para onde ir. Muitos faleceram, por causa das intemp�ries e doen�as no trajeto. A Primeira Presid�ncia da Igreja se achava encerrada na pris�o, e Brigham Young, membro do conselho dos Doze Ap�stolos, dirigiu esta penosa retirada, que precedeu um movimento ainda mais tr�gico, realizado menos de oito anos depois, e do qual ele seria o l�der.

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