Na noite de 6 de maio de 1842, o ex-governador do Missouri, Lilburn W. Boggs estava em sua casa, quando um assaltante desconhecido atirou pela janela e o feriu seriamente. A arma foi encontrada do lado de fora, mas o quase assassino n�o foi apanhado. Temeu-se por algum tempo que Boggs morresse, o que, entretanto, n�o aconteceu.

     Como ele havia desempenhado um papel importante na expuls�o dos M�rmons do Estado, logo surgiu o rumor de que eles eram os respons�veis pelo que havia acontecido. O ex-governador sem qualquer fundamento aparente para o seu ato, escreveu uma declara��o, acusando de crime Orrin Porter Rockwell, membro da Igreja. Fez ainda outra declara��o, acusando Joseph Smith de solid�rio com o crime. Solicitou-se ao governador do Missouri que intercedesse junto ao governador de Illinois, para que Joseph e Porter fossem entregues a um representante do Estado de Missouri.

     Emitiu-se uma ordem de pris�o, e os homens foram presos, mas libertados ap�s ser julgado um pedido de h�beas corpus. Os pianos dos inimigos missourianos do Profeta haviam sido frustrados, mas eles n�o se deixaram vencer t�o facilmente.

     Em 1840, o dr. John C. Bennett filiou-se a causa M�rmon. Era um homem de diversos dotes, culto e capaz, mas n�o tinha princ�pios. Por ser capaz, teve ao seu encargo v�rias responsabilidades, mas, ap�s envolver-se em ofensas morais, foi repreendido por Joseph Smith. Revidou, abandonando Nauvoo, e publicando um livro contra a Igreja. Entrou, ent�o, em contato com os inimigos da Igreja em Missouri, deitando combust�vel ao fogo j� vivo do �dio. O resultado foram novas maquina��es para prender Joseph Smith. Novamente foram in�teis seus esfor�os.

     Havia um outro grupo em Nauvoo, contudo, cujos esfor�os deveriam ser coroados do maior sucesso. Seis homens, William e Wilson Law, Frances M. e Chauncey L. Higbee, Charles A. e Robert D. Forster - haviam sido desassociados da Igreja, motivo pelo qual resolveram arruinar o Profeta.

     Al�m dessas dificuldades, havia a situa��o pol�tica. Os M�rmons votavam em homens cuja pol�tica julgavam poder proporcionar benef�cios, algumas vezes candidatos de um partido, algumas vezes de outro. Na campanha presidencial de 1844, discordando da pol�tica de ambos os partidos principais, tomaram um outro caminho, apoiando Joseph Smith candidate a presid�ncia dos Estados Unidos da Am�rica, com Sidney Rigdon na vice-presid�ncia. O l�der M�rmon proclamou sua plataforma, na qual dava suas id�ias sobre o governo, com o que atraiu a aten��o de muitos. Entre outras coisas, advogava que o governo deveria resolver o problema dos escravos, comprando os negros, libertando-os e compensando seus propriet�rios, pol�tica que, se fosse seguida, teria trazido economia para o Tesouro e salvo as vidas que foram sacrificadas mais tarde, na guerra civil. Sugeria ainda que se transformassem as pris�es em escolas, onde os criminosos pudessem aprender of�cios �teis, e assim, tornarem-se membros �teis da sociedade.

     Para proclamar ao povo da na��o os pontos de vista do Profeta, um grande n�mero de homens partiu de Nauvoo, a fim de fazer campanha pela sua candidatura. Enquanto muitos desses homens se achavam ausentes de Nauvoo, as dificuldades do Profeta atingiram o auge.

     A 10 de junho de 1844, os seis homens j� citados publicaram um jornal difamat�rio, denominado "Nauvoo Expositor" ("O Expositor de Nauvoo")- Causou grande agita��o, porque difamava abertamente cidad�os proeminentes da comunidade.

     O povo todo ficou inflamado. Uma vez que a legislatura estadual de Illinois, ao conceder a condi��o de munic�pio a Nauvoo, dera-lhe autoridade para "declarar o que for um empecilho, preveni-lo e remov�-lo", o conselho da cidade se reuniu, durante cerca de quatorze horas, obteve as provas, leu as leis sobre o assunto, consultou a carta concebida pela legislatura para determinar seus direitos e obriga��es, declarou o jornal sem utilidade p�blica e ordenou ao prefeito, que era Joseph Smith, que o extinguisse.

     Ele, por sua vez, emitiu uma ordem ao delegado da cidade, para que "destru�sse a m�quina impressora da qual sa�a o 'Expositor de Nauvoo', amontoasse na rua os tipos do estabelecimento e queimasse os exemplares e documentos difamat�rios ali encontrados".(2) O delegado executou a ordem e fez o relat�rio.

     Seus editores imediatamente usaram esse fato como pretexto para acusarem Joseph Smith e seu irm�o Hyrum de viola��o da liberdade de imprensa. Ambos foram presos, julgados e ab-solvidos. Mas, desde a�, tal circunst�ncia tem sido denunciada por dezenas de autores. Uma an�lise profunda da lei em vigor na �poca, todavia, fez com que distinguida autoridade legal conclu�sse: "Postos de lado os danos causados pela desnecess�ria destrui��o da imprensa, pelos quais as autoridades de Nauvoo s�o inquestionavelmente respons�veis, o restante das a��es do conselho, inclusive sua interpreta��o da garantia constitucional de uma imprensa livre, pode ser apoiado pela consulta a lei em vigor naqueles dias".(3)

     Mas o fogo do rancor, que por tanto tempo havia sido alimentado, irrompia agora com f�ria. Corriam boatos em todo o oeste de Illinois. Os inimigos do Profeta dirigiram-se ao governador Thomas Ford com hist�rias exageradas, e o governador pediu que Joseph e Hyrum o encontrassem em Cartago, onde o sentimento contra ambos era particularmente forte. Ele acrescentou: "Garantirei a seguran�a de todos os que vierem a esse local, procedentes de Nauvoo, seja para julgamento, seja como testemunhas do acusado".(4)

     Sentindo a real import�ncia da situa��o, Joseph Smith respondeu: "N�o ouso ir apesar de V. Excia. prometer prote��o. N�o obstante, V. Excia. expressou o temor de n�o poder controlar o povo, e nesse caso, ser�amos deixados a merc� dos �mpios. N�o ousamos ir, porque nossas vidas estariam em perigo, e n�o somos culpados de crime algum".(5)

     O Profeta sabia do que falava. Apesar de ter sido preso e absolvido trinta e sete vezes, escreveu na ultima anota��o em seu di�rio: "Eu disse a Stephen Markham que, se Hyrum e eu f�ssemos presos novamente, ser�amos massacrados, ou eu n�o era um profeta de Deus".(6)

     Pensou em fugir para o oeste, mas alguns dos que se achavam achegados a ele o aconselharam a ir a Carthage e submeter-se a julgamento. A seu irm�o ele disse: "Seremos massacrados".(7) N�o obstante, na manh� de 24 de junho de 1844, o Profeta e v�rios amigos partiram para Carthage. Detendo-se perto do templo, contemplaram o magn�fico edif�cio e a cidade, que somente cinco anos atr�s tinha sido pouco mais do que um p�ntano. Joseph Smith disse ao grupo que o acompanhava: "Esse � o mais belo local e o melhor povo que h� sob os c�us; ele pouco sabe das prova��es que o aguardam".(8)

     Mais adiante, fez outra observa��o significativa: "Vou como um cordeiro para o matadouro; mas estou calmo como uma manh� de ver�o; tenho a consci�ncia livre de ofensa contra Deus e contra os homens. Morrerei inocente e ser� dito de mim - foi assassinado a sangue frio".(9)

     Ao chegarem a Carthage, foram presos, acusados de trai��o, e encerrados na cadeia mediante uma falsa ordem de pris�o. Quando se protestou contra a ilegalidade de tal ato junto ao governador Ford, este replicou n�o considerar seu dever interferir, uma vez que eles estavam nas m�os da lei. Entregou portanto o assunto ao magistrado local que casualmente era um dos l�deres do populacho e sugeriu que os "Carthage Greys" (mil�cia local) fossem empregados para garantir o encarceramento.(10)

     Joseph Smith conseguiu entrevistar-se com o governador, que lhe prometeu que ele seria protegido da turba que j� se reunia em Carthage. Al�m disso, o governador assegurou-lhe que se ele, como governador, fosse a Nauvoo para investigar pessoalmente o assunto, como Joseph solicitara que fizesse, levaria o Profeta consigo.

     N�o obstante suas promessas, na manh� de 27 de junho o governador Ford foi a Nauvoo, deixando Joseph e Hyrum Smith, Willard Richards e John Taylor encarcerados em Carthage, com o populacho reunido na pra�a da cidade.

     Os prisioneiros passaram o dia em palestra e escrevendo cartas. A esposa, Joseph escreveu: "Estou resignado a minha sorte, sabendo estar justificado e que fiz o melhor que poderia ter feito. Transmita meu amor aos filhos... e a todos os que perguntarem de mim... Que Deus aben�oe a todos..." As cartas foram enviadas com visitantes que partiram as 13 h 30 minutos da tarde.

     Enquanto o dia passava, um sentimento de depress�o abateu-se sobre o grupo. A pedido do Profeta, John Taylor cantou "Um Pobre e Aflito Viajor", hino que se referia ao Salvador, e que havia sido popular em Nauvoo:

"Um pobre e aflito viajor
Por meus caminhos ao cruzar
Aux�lio suplicou-me, e amor,
E eu n�o pude lhe negar.
Seu nome nunca perguntei
Qual seu destino ou sua grei,
Mas seu olhar, consola��o
Me trouxe ao triste cora��o.

A minha mesa t�o frugal
Estava posta, quando entrou.
T�o fraco estava que, afinal,
Tudo lhe dei, e ele tomou.
Mas deu-me parte a mim tamb�m,
Qual p�o do c�u, manjar do al�m.
Aliviou-me toda a dor,
Qual do man� foi seu sabor.

Junto a um regato a murmurar,
Sedento o vi chegar um dia.
Mas j� sem for�as trope�ar
Ao p� da fonte que corria.
Em seu aux�lio me apressei,
Meu pr�prio copo lhe ofertei,
Ap�s beber, tamb�m bebi,
E sede nunca mais sofri.

Em noite horr�vel a chamar,
Mesclada a voz do furac�o,
Sua voz ouvindo o fui buscar
Para o meu lar e prote��o.
Abrigo e roupas eu lhe dei,
Meu pr�prio leito lhe ofertei,
No ch�o deitei-me a repousar,
E foi t�o doce o meu sonhar.

Junto ao caminho o encontrei,
Ferido e prestes a morrer;
Seu corpo e alma confortei,
Curei-lhe as dores e o sofrer.
Oculta dor que me afligia,
Naquele instante eu n�o sentia,
E nunca mais essa afli��o,
Amargurou meu cora��o.

Numa pris�o o vi chorar,
Sob o rigor da humana lei.
As torpes l�nguas fiz calar,
E sob esc�rnio honra lhe dei.
Pediu-me, ent�o, morrer por si,
A carne fraquejou, tremi,
Mas forte o esp�rito venceu
E respondi-lhe: "Aqui estou eu".

O estranho ent�o se transformou
Naquele instante e mesmo ali.
As m�os e o lado me mostrou,
Meu Salvador reconheci.
Meu pobre nome ouvi chamar:
"Tu, que soubeste assim me amar,
Dando aos humildes teu amor,
Vem para o gozo do Senhor".

(Veja A Liahona, agosto de 1967, p. 30; Hinos, n� 15)

     N�o muito depois de terminar a can��o, "...houve um pequeno rumor na porta externa da cadeia, um grito de rendi��o e quatro disparos se seguiram. O doutor olhou atrav�s das cortinas da janela e viu cerca de cem homens armados, a porta... A multid�o cercou o edif�cio e alguns deles conseguiram passar pelos guardas; subindo o lance de escadas e arrebentando a porta, iniciaram a sua obra de morte".

     Hyrum foi abatido primeiro. Caiu ao solo, exclamando: "Sou um homem morto". Joseph correu para ele, dizendo: "Meu querido irm�o Hyrum!" John Taylor foi ent�o atingido e caiu ao solo seriamente ferido. Felizmente, contudo, o impacto da bala foi diminu�do pelo rel�gio que estava no bolso do colete, o que lhe salvou a vida.

     Com balas explodindo pela porta a dentro, Joseph saltou para a janela. Tr�s balas atingiram-no quase que simultaneamente, duas vindas da porta e uma da janela. Mortalmente ferido, ele caiu pela janela aberta, exclamando: "� Senhor, meu Deus!"

     O dr. Richards escapou sem qualquer ferimento. A Igreja, por�m, havia perdido seu Profeta e seu irm�o, o patriarca. O ato havia sido completado em quest�o de segundos.(12)

     Quando a not�cia do assass�nio de Joseph e Hyrum chegou a Nauvoo, foi como se uma nuvem de tristeza se abatesse sobre a cidade. No dia seguinte, os corpos dos mortos foram levados para Nauvoo. Milhares de pessoas sa�ram as ruas para ver passar o cortejo. Os dois irm�os foram enterrados no dia seguinte.

     Entrementes, os habitantes de Carthage refugiaram-se em suas casas, temendo que os M�rmons viessem em massa, exigindo vingan�a. Mas n�o havia disposi��o de pagar �dio com �dio. Os santos contentaram-se em deixar os assassinos nas m�os do Senhor, que disse: "A vingan�a � minha. Eu retribuirei".

     Os instigadores haviam pensado que, matando Joseph Smith, estariam matando o mormonismo. Mas, ao assim procederem, n�o entenderam o car�ter do povo, nem a organiza��o da Igreja. Joseph havia conferido as chaves da autoridade aos ap�stolos, com Brigham Young a frente, e o povo o apoiou em tal posi��o, apesar de ter havido alguma confus�o por certo tempo.

     Sob a lideran�a de Brigham Young, o progresso de Nauvoo continuou. Tornava-se cada vez mais claro, contudo, que n�o haveria paz para os M�rmons em Illinois. O sangue dos irm�os Smith parecia somente ter feito seus inimigos mais ousados. A lei n�o havia punido os assassinos: o governador, aparentemente, fora conivente com eles. Por que n�o deveriam completar a obra de exterm�nio?

     Ao diminuir o choque dos assass�nios, recome�aram as depreda��es contra propriedades. Campos de cereais foram queimados, o gado dispersado, e queimadas as casas dos arredores da cidade. Sob tais circunst�ncias, Brigham Young e outros l�deres da Igreja resolveram procurar um local onde os santos pudessem viver em paz, sem serem molestados pelas turbas e pelos pol�ticos inescrupulosos.

     Joseph Smith havia pronunciado uma not�vel profecia em 1842, quando os M�rmons estavam em Nauvoo. Dissera que "os santos continuariam a sofrer muitas afli��es e seriam expulsos para as Montanhas Rochosas. Muitos apostatariam, outros seriam mortos por persegui��es ou perderiam a vida sob as intemp�ries e doen�as e alguns deles viveriam para ajudar na coloniza��o e no erguimento de cidades e veriam os santos se tornarem um povo poderoso nas Montanhas Rochosas".(13)

     L� na vastid�o do oeste, estava a esperan�a de paz. Constantemente fustigada pelas amea�as e pela for�a da turba, a Igreja come�ou os preparativos para abandonar sua bela cidade no outono de 1845, e partir em dire��o ao deserto, a fim de encontrar um local onde os santos finalmente pudessem adorar a Deus, de acordo com os ditames de sua consci�ncia.

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