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O êxodo dos Mórmons de Nauvoo, Illinois, em fevereiro de 1846, figura como um dos acontecimentos épicos na história dos pioneiros dos Estados Unidos da América. No rigoroso inverno, eles atravessaram o rio Mississipi, tendo carregado em carroções o pouco que podiam levar consigo. Atrás deles deixaram os lares que haviam construído no pântano de Commerce durante os sete anos que puderam viver em Illinois. Diante deles, estendiam-se regiões desabitadas e desconhecidas em sua grande parte. Em virtude de esta marcha parecer-se tanto com o êxodo dos israelitas do Egito para uma terra prometida, que não tinham visto, os Mórmons deram a esse movimento o nome de "O Acampamento de Israel". Brigham Young e o primeiro grupo atravessaram o rio a 4 de fevereiro. Alguns dias mais tarde, o rio estava suficientemente gelado para agüentar os cavalos e os carroções. Mas, apesar do frio ter apressado o movimento, trouxe também intenso sofrimento. Eliza R. Snow, membro do grupo, escreveu o seguinte, a respeito das condições em que se encontravam esses exilados: "Fui informada de que nasceram nove crianças na primeira noite de acampamento e, desde aquela época, ao prosseguirmos viagem, as mães davam a luz sob as mais variadas circunstâncias, algumas em tendas, outras nos carroções, sob a chuva ou tempestade de neve... Deve-se lembrar que as mães dessas crianças nascidas no ermo não eram selvagens, acostumadas a vagar pelas florestas e a desafiar os temporais e tempestades... A maioria delas ha via nascido nos estados do leste (dos Estados Unidos) e lá abraçaram o evangelho, tal como havia sido ensinado por Jesus e seus apóstolos, e pela sua religião haviam-se unido aos santos. Sob trágicas circunstâncias, haviam auxiliado, com fé, paciência e energia, a fazer de Nauvoo o que o nome indica: "A Bela". Tinham tido lindas casas, decoradas com flores e enriquecidas com árvores das melhores frutas, que mal haviam começado a produzir abundantemente. A estes lares, sem terem sido alugados ou vendidos, elas acabavam de dizer adeus e, com o pouco que podia ser carregado em um, dois, e em alguns casos, três carroções, partiram em direção ao ermo, para onde? A única resposta a esta pergunta, naquele tempo, era: 'Deus sabe.'"(1) Brigham Young presidia este grupo de peregrinos. Aceitaram-no como profeta, líder e inspirado sucessor de seu querido Joseph. Acreditavam que ele os conduziria a um local de refúgio "entre as Montanhas Rochosas", onde Joseph havia predito que se tornariam "um povo poderoso". Depois que os exilados chegaram a Iowa, pelo rio Mississipi, organizaram-se em grupos de cem e determinaram os padrões de conduta. Subdividiram-se em grupos de cinqüenta, que por sua vez eram divididos em grupos de dez, com oficiais que orientavam cada grupo. Brigham Young foi apoiado como "presidente de todo o Acampamento de Israel".(2) Viajaram a noroeste, atravessaram o território de Iowa, por uma região pouco habitada entre os rios Missouri e Mississipi. Nos primeiros dias de percurso, a neve se acumulava no chão, numa altura de cerca de dois metros a dois metros e meio, oferecendo as cobertas de lona de seus carroções pouca proteção contra o frio e o cortante vento setentrional. Com a chegada da primavera, a neve se derreteu, tornando a viagem ainda mais difícil. Não havia estradas na direção em que os santos viajavam e eles tinham de construir seu próprio caminho. As vezes a lama era tão profunda, que se necessitava de três juntas de bois para puxar uma carga de duzentos e cinqüenta quilos. Exaustos após um dia de puxar e empurrar, cortar madeira para pontes, carregar e descarregar carroções, os viajantes descobriram ter viajado apenas uns dez quilômetros. A lama e a chuva faziam de seus campos verdadeiros atoleiros. O fato de estarem expostos a tais condições, e mais a alimentação inadequada, ceifou uma grande quantidade de vidas. Os enterros durante a viagem eram freqüentes. Um tosco ataúde feito de madeira, uma breve cerimônia fúnebre e os bem-amados do morto voltavam a face e os animais em direção ao oeste, compreendendo que jamais passariam novamente por aquele caminho. É admirável que esse povo não se tenha tornado amargurado e vingativo, especialmente quando se lembravam de suas casas confortáveis, agora assaltadas e queimadas pela turba de Illinois. Mas aliviavam as dores com prazeres que eles mesmos encontravam. Tinham banda de música, e utilizavam-na bastante. Os colonizadores de Iowa admiravam-se de ver aqueles pioneiros limpar a terra ao redor de seu acampamento e então dançar e cantar ate que a corneta soasse o recolher. Foi enquanto viajavam nessas circunstâncias que um deles, William Clayton, compôs um hino épico das planícies, "Vinde, ó Santos". Adaptado de antiga cançoneta inglesa, tornou-se um hino de esperança e fé para os milhares de pioneiros Mórmons. Talvez nada expresse melhor o espírito desse movimento. Quando o alimento começou a se tornar escasso, viram-se obrigados a trocar seus preciosos bens - pratos, talheres e rendas, trazidos do leste e de além-mar, por um pouco de milho ou de carne salgada. Assim os lares de muitos colonizadores de Iowa foram enriquecidos, e os Mórmons puderam aumentar seu parco suprimento. De vez em quando, a banda afastava-se consideravelmente para dar um concerto em algum acampamento da fronteira, com o propósito de aumentar suas provisões. Uma das notáveis características desse movimento foi a construção de povoações temporárias pelo caminho. O grupo pioneiro detinha-se o tempo suficiente para limpar, cercar, arar e plantar vastas áreas. Os lideres pediam voluntários, alguns para cortar as toras, cercar e construir pontes, outros para arrancar árvores, e outros ainda para arar e semear. Eram construídas algumas casinhas, e várias famílias destacadas para ficar e cuidar da plantação. A companhia, então, movia-se para adiante, deixando as plantações para serem colhidas pelos grupos que viessem mais tarde. William Clayton Antiga Melodia Inglesa Vinde, ó santos, sem medo ou temor, For que dizeis: "É dura a provação?" Sem aflição, em paz e sem temor, Chegando a morte, tudo irá bem, O movimento caracterizava-se por um espírito de cooperação mútua, sem o que a Jornada de vinte mil pessoas através do ermo teria, talvez, terminado em desastre. Aproximadamente três meses e meio após deixar Sugar Creek, seu acampamento na margem oeste do Mississipi, os pioneiros chegaram a Council Bluffs, no Missouri. Seguindo-os através de todo o território de Iowa, vinha um vagaroso comboio de centenas de carroções. Deveriam continuar deixando Nauvoo e movendo-se sobre as colinas de Iowa, durante todo aquele verão e ate quase o fim do ano. Lá estava a moderna Israel em busca da terra prometida! Certa manhã de junho de 1846, os Mórmons encontravam-se em um de seus acampamentos temporários, quando foram surpreendidos pela aproximação de uma companhia de soldados dos Estados Unidos. Comandava-a o capitão James Allen, trazendo um chamado para quinhentos jovens capazes, a fim de lutarem na guerra contra o México. O capitão foi enviado a Council Bluffs, para se avistar com Brigham Young e outras autoridades da Igreja. Não é de admirar que os líderes tenham observado a ironia da situação: seu país, que havia permanecido alheio enquanto eles, como cidadãos, eram despojados de seus lares de forma inconstitucional, agora solicitava voluntários militares. É verdade que os Mórmons haviam pedido auxílio ao governo na forma de contratos para a construção de fortins ao longo da estrada para o oeste. Acreditavam que isto podia ser uma grande ajuda aos milhares de emigrantes, Mórmons ou não, que fossem para o oeste nos anos seguintes. Tais fortins ofereciam proteção contra os índios e outros perigos das planícies. Mas a convocação de quinhentos homens tão necessários, não era a resposta que esperavam. Além disso, esse número era altamente desproporcional, se comparado a população do país como um todo. Não obstante, atenderam. Brigham Young e outros foram de acampamento em acampamento hasteando a bandeira nacional em cada posto de recrutamento. E apesar de isso significar que deixariam famílias sem chefe nas planícies, os homens se alistaram, quando o Presidente Young lhes assegurou que seus familiares teriam alimento tanto quanto sua própria família. O capitão Allen admirou-se com a música e as danças na véspera da partida. Os recrutas deveriam ir ao México. Suas famílias teriam agora necessariamente de estabelecer pousada para o inverno e esperar ate o ano seguinte, a fim de ir para as Montanhas Rochosas. Onde e quando se encontrariam novamente, era difícil de responder. Talvez fosse a afirmação de Brigham Young que tivesse diminuído a dor da partida. Ele prometeu aos homens que "se cumprissem fielmente seus deveres, sem murmurar, e fossem em nome do Senhor, humildes, orando todas as noites e manhãs", não teriam de lutar, e retornariam aos lares em segurança.(3) De Council Bluffs, marcharam para o Forte Leavenworth. Lá receberam pagamento adiantado para roupas e enviaram grande parte do dinheiro para auxiliar suas famílias. De Leavenworth, marcharam para o sudoeste, em direção a velha cidade hispânica de Santa Fé. Ali foram recebidos por uma guarnição sob o comando do coronel Alexander W. Doniphan, o mesmo homem que havia salvo a vida de Joseph Smith, no Missouri. De Santa Fé, prosseguiram para o sul, através do vale do Rio Grande, mas antes de alcançarem El Paso, seguiram para oeste, acompanhando o Rio São Pedro. Atravessaram então o rio Gila, marcharam para Tucson, seguiram o rio Gila ate o Colorado, e transpuseram as montanhas de San Diego, Califórnia. Grande parte do caminho que trilharam foi mais tarde seguido pela Estrada de Ferro Union Pacific. A história dessa marcha memorável é constituída de sofrimento, em virtude das rações insuficientes, da sede abrasadora, das tentativas desesperadas de conseguir água, da viagem exaustiva através de pesados desertos de areia e da abertura de picadas através de montanhas quase intransponíveis. Deixaram suas famílias em junho de 1846. Alcançaram San Diego a 29 de Janeiro de 1847. A guerra havia terminado quando chegaram a seu posto, e não tiveram de lutar. A promessa profética de Brigham Young havia sido cumprida. Ao chegarem a costa do oceano Pacífico, seu comandante, o coronel Philip St. George Cooke, do Exército dos Estados Unidos da América, cumprimentou-os com uma citação que dizia, em parte: "O tenente-coronel comandante congratula-se com o batalhão por ter chegado a salvo as praias do Oceano Pacífico e por ter concluído sua marcha de cerca de 3200 quilômetros. Em vão se procurará na história tal marcha de infantaria. A metade do percurso foi feita através de zonas inóspitas, onde nada se encontrou além de selvagens, animais ferozes e desertos, onde, pela falta de água, não havia ser vivo. Num esforço quase sem esperanças, escavamos poços profundos, que o viajante poderá aproveitar no futuro. Sem ter um guia que as tivesse atravessado antes, aventuramo-nos em terras desconhecidas, onde não encontramos água em várias marchas. Carregando alavancas de ferro, picaretas e machados nas mãos, abrimos o caminho através de montanhas que pareciam desafiar a todos além da cabra montesa, conseguindo passagem através de uma fenda na rocha viva, mais estreita que nossos carroções".(4) Mas, enquanto os membros do Batalhão estavam servindo sob a bandeira do país, os que permaneceram em Nauvoo estavam sendo expulsos pelo populacho que desafiava toda garantia constitucional. Apesar de a maioria dos Mórmons ter conseguido sair de Nauvoo antes de 1° de maio de 1846, data determinada para deixarem a cidade, alguns deles ainda não tinham tido tanta sorte. Em agosto, havia cerca de mil, muitos deles doentes e velhos. Pensava-se que a turba pouparia ao menos esses. Mas a história testemunha sombriamente o fato de que aqueles que haviam tido idéias tão otimistas estavam grandemente enganados. Ao ficar evidenciado o fato de que a turba não esperaria, o povo de Nauvoo apelou ao governador, pedindo auxílio. Em resposta, este enviou um certo major Parker, com dez homens, para representar a milícia do estado de Illinois. Posteriormente, o major Parker foi substituído por um tal major Clifford. Os apelos do major para uma solução pacífica do desentendimento foram respondidos pela turba com ataques feitos a este e aos Mórmons que se haviam oferecido como voluntários para lutar sob suas ordens. Em número muito menor, os defensores da cidade disfarçaram cinco mastros velhos de navio como canhões e construíram parapeitos improvisados. Em nome do povo de Illinois, o major Clifford ordenou a multidão que se dispersasse. Em resposta, atacaram a cidade. Os defensores conseguiram mantê-los a distância por algum tempo, mas eram em número tão infinitamente menor, que os Mórmons não tiveram outra alternativa, senão concordarem com o abandono da cidade, assim que conseguissem reunir seus parcos bens. Nem mesmo isso satisfez a turba. Enquanto os Mórmons se afastavam, foram perseguidos e atacados, tendo seus carroções sido pilhados. Dirigiram-se para o lado de Iowa, e ali acamparam temporariamente. O coronel Thomas L. Kane, de Filadélfia, que os viu por acaso naquela ocasião, descreveu mais tarde para a Sociedade Histórica de Pensilvânia a sua situação: "Foi, de fato, horrível, o sofrimento daqueles seres esquecidos; intimidados e encolhidos sob o frio e as queimaduras de sol, alternando-se a medida que cada dia e cada noite se arrastavam, eram, quase todos, vítimas indefesas de doenças. Estavam ali porque não tinham lares, nem hospital, nem albergues, nem amigos para lhes oferecer qualquer coisa. Não podiam satisfazer a fome de seus doentes, não tinham pão para aquietar os gritos desesperados de fome de seus filhos... Assim estavam os Mórmons, famintos, no condado de Lee, Iowa, na quarta semana do mês de setembro, no ano de Nosso Senhor de 1846. A cidade (que acabara de visitar) era Nauvoo, Illinois. Os Mórmons tinham sido os proprietários daquela cidade e do belo campo que a cercava. E aqueles que haviam interrompido os arados, silenciado os seus martelos, os seus machados, os seus teares e as suas rodas, aqueles que haviam apagado o seu fogo, comido os seus alimentos, inutilizado os seus pomares e pisado sobre os seus milhares de alqueires de trigo ainda não colhido, tomavam conta de suas habitações, faziam orgias em seu templo, e sua anarquia embriagadora insultava os ouvidos dos que estavam morrendo".(5) Nessas condições extremas, muitos teriam morrido, não fosse pelas milhares de codornas que voaram sobre seu campo, as quais puderam ser apanhadas com as mãos. Eles as consideraram como maná dos céus, uma resposta as suas orações. Felizmente, não tiveram de permanecer
nestas condições por muito tempo. Seus irmãos, que haviam partido na frente,
enviaram carroções de socorro e dividiram com eles as suas parcas rações. A
ultima visão de Nauvoo, ao caminharem tristemente pelas colinas de Iowa, era a
torre do seu sagrado templo, agora danificado e violado. |
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